Caminho de Santiago – Nas passadas

Acho que é sempre um bom começo quando nos propomos a algo sem muitas expectativas. Sem ideias pré-formatadas. Assim tudo o que vier tem o potencial de nos surpreender ou encantar de alguma forma. Eu fui assim, sem ter a intenção de qualquer epifania ou reflexão muito elaborada sobre a vida. Na verdade o que eu queria mesmo era me afastar de pensamentos profundos demais. Estava cansada de tanto pensar, queria só FAZER alguma coisa.

E foi assim que eu descobri que o caminho é só um caminho, na verdade. Tem muita gente que o faz, claro, por motivos religiosos ou espirituais. Mas muitos vão pela aventura, pelo desafio físico e a possibilidade de conhecer gente.

As trilhas são normalmente no meio da floresta, passando por fazendas e vilarejos bem pequenos. Logo no início eu me dei conta que o meu pouco treinamento foi mal feito. A Holanda é 100% plana, então é como se eu tivesse treinado na beira mar quando deveria estar subindo o morro do mirante.

Definitivamente, mesmo para uma pequena etapa, caminhar 4 a 5 horas por dia ladeira acima e abaixo exige um preparo prévio.

Por diversas vezes eu me perguntei porque raios eu estava mesmo fazendo aquilo. Foi exatamente o mesmo sentimento de ter mudado de país. “Que sonho mais idiota!”, eu pensava. Imaginando quanta paciência Deus deve ter comigo e com as minhas aspirações sem sentido.

Há pouco tempo atrás havia perguntado pra Nick coisas que ela queria, na tentativa de iniciar uma conversa sobre educação financeira, sobre juntar moedinhas. Agora eu via como a lista sem noção dela se parecia com a minha. Jesus deve se sentir como eu me senti, rindo com compaixão paterna depois das nossas conversas.

A questão é que no fundo eu gostei de um desafio físico só meu depois de tanto tempo buscando escrever e refletir sobre as coisas que ando aprendendo. É como se eu tivesse criado a minha própria dinâmica motivacional. Sabe aquelas atividades corporativas que nos obrigam a ir para o meio do mato fazer coisas que não faríamos voluntariamente? Então, foi como uma auto-intervenção pra mim.

E mesmo que não tenha sido a intenção (eu queria mesmo era escutar música e andar), algumas fichas caíram. Mais uma prova de que a gente aprende mesmo é na prática, vivendo.

Deixo aí então um resumo dos top 10 pensamentos que as horas caminhando me deixaram:

1. Curtir o momento

Eu não fiz nenhuma pesquisa prévia, então não tinha nenhuma ideia do que o dia me traria. Sabia só quantos quilômetros precisava caminhar. Quando caminho por aqui estou sempre atenta aos pontos familiares, entendendo onde estou geograficamente, se logo vou encontrar uma ponte, uma rua conhecida. Ali cada curva era nova, eu não tinha ideia de onde estava, e especialmente, se iria encarar ou não a subida mais difícil do dia no próximo quilômetro. Ou mesmo se aquela era a única.

O não saber, o desconhecido, é assustador. Mas é ao mesmo tempo a coisa mais comum do mundo. Nós temos uma falsa sensação de controle, mas na real não sabemos o que o dia nos trará.

Este não saber deixa mais evidente a vontade de curtir o que estava acontecendo no agora. Ou pelo menos de pensar menos no que está por vir. Se é tudo novo, olhamos mais atentos para a paisagem, aproveitamos com gosto se o caminho está plano. O não saber pode ser muito bom afinal.

2. Depois da tempestade, a bonança

Também conhecido por: depois da subida, vem uma descida. Quando a coisa está muito difícil, quando o cansaço físico pegava muito forte (para mim especialmente nas subidas) eu só pensava que precisava continuar. Devagar e sempre.

Parar naquele momento não seria a melhor ideia. O corpo esfriaria e retomar a caminhada num ponto muito desafiador seria bem mais difícil. Claro que tudo isso sendo muito responsável, entendendo o limite do corpo. Mas se era possível seguir, ainda que com algum sacrifício, bora lá.

Porque uma coisa era certa: aquela dificuldade era temporária. Tudo é. Logo eu estaria lá em cima, contemplando a vista, e depois daquele esforço viria alguma recompensa. Uma descida suave, uma planície ou a sombra das árvores. Essa fé sempre se confirma. Tudo passa mesmo! E a vida sempre nos manda o sopro necessário para seguirmos em frente, nos preparando para a próxima subida.

3. O diálogo interno

Muito tempo em silêncio com os próprios pensamentos pode ser perigoso. Nosso diálogo interno se torna cruel muitas vezes. Focamos nas dores, nas dificuldades, em quanto falta para chegarmos lá. Um minuto pode ser mais torturante do que uma hora quando um pensamento ruim é persistente.

É nessa hora que desistimos. Mais do que parar o que nos incomoda, queremos fugir dos nossos próprios pensamentos paranóicos. Nesses momentos eu recorria a duas possibilidades.

A primeira era repetir para mim mesma a seguinte frase: “Isso é só um pensamento, não é real”. Mesmo sem querer imaginamos nossos piores cenários. Pensamos nas consequências mais trágicas daquilo que estamos fazendo. Imaginamos exatamente o que mais tememos.

Mas isso tudo é só imaginação. Nada daquilo aconteceu ou vai acontecer. Posso trocar aquele pensamento por outro melhor (me imaginar conseguindo alcançar algo, por exemplo), ou desmascarar o meu pensamento dizendo que ele não é real.

A segunda alternativa era parar de pensar. Divergir. Assim como faço com os meus filhos quando têm uma ideia fixa. “Olha o macarrão!!!” Talvez seja a forma menos nobre, mas a mais eficiente de enganar o cérebro. Sair de si mesmo. Escutar uma música, um podcast. As horas passam, a gente sente menos a realidade, sai do momento presente, mas se alimenta de algo bom ao invés de se torturar com alguma coisa que não estava funcionando.

4. Caminhar é a meta

Acho que este tipo de atividade traz um mix muito legal entre ter uma meta lá na frente mas ao mesmo tempo entender que ela não é o mais importante.

Todo mundo que está caminhando almeja chegar em Santiago. E todos têm um desafio para o dia, chegar em determinada cidade. Mas o chegar por si só não é o mais importante. O caminhar é. O passar das horas fazendo aquilo é o objetivo afinal. O nome já diz tudo, está se fazendo “o caminho”, não a chegada. Essa perspectiva de curtir a caminhada em si muda tudo.

5. Sozinhos e acompanhados

Outras expectativa que normalmente se tem a respeito de uma jornada assim é sobre as outras pessoas. Esperamos encontrar todos numa vibe comunitária, aberta, disposta a ajudar, a doar algo. Ansiamos por histórias de desprendimento para contar na volta.

A verdade, contudo, é que como em qualquer lugar encontraremos pessoas de todos os tipos. Acho que o índice de “gente boa” ali é bem grande, já que na maioria dos casos são pessoas que curtem a natureza, o estar em contato com outras pessoas, etc, mas no final das contas, são pessoas.

Há quem queria estar sozinho e não está nem um pouco a fim de papo. Há quem já tenha sua companhia e isso basta. Há quem não abra mão do seu ritmo para esperar o outro. Há quem esteja rezando e quem esteja curtindo passar voando de bike. O mais interessante é que a maioria não parece se sentir nem um pouco impactado pela decisão do outro, mesmo que seja bem diferente da sua. Cada um tem o seu jeito de curtir a experiência.

É uma individualidade coletiva que funciona bem. Sem julgamentos. Eu sentia que poderia estar vestida de qualquer forma, caminhando de qualquer jeito, e muito pouco do que eu fizesse poderia de fato chamar atenção. Ainda assim, conheci muita gente boa e sabia que se precisasse de ajuda poderia contar com qualquer um que cruzasse pelo caminho.

6. Licença para expressar a fé

Ultimamente ser cristão me parece algo delicado. Precisamos falar disso com alguma cautela, como se fossemos espantar as pessoas. Ou quem sabe como se tentássemos convencer todo mundo a ser também de um jeito meio piegas.

Ali achei bonito ver as pessoas expressando sua fé e espiritualidade de um jeito livre. Algumas partes do caminho não são necessariamente bonitas, e muitas cidades são bem sem graça (veja no post sobre os detalhes do caminho o trecho que eu fiz). Na maioria delas não há absolutamente nada a se fazer e a única atração da cidade é a igreja, que abre só no horário da missa. Ou seja, a ideia não é visitar com pretensões turísticas.

Seja pela fé ou pela falta do que fazer, às 19 hs a igreja estava sempre cheia de peregrinos. Os vilarejos eram bem pequenos, e normalmente um ou dois bancos só estavam ocupados por moradores. O restante eram peregrinos pedindo proteção e agradecendo pela caminhada do dia.

Numa das últimas missas o padre, que comemorava 42 anos de ministério naquele dia, chamou todos os peregrinos à frente (esvaziando a igreja) e perguntou a cada um de onde vinham. Contou histórias sobre o caminho e ao final falou de uma forma muito bonita sobre as marcas que esta experiência deixaria em cada um de nós. “Religiosidade é muito mais do que seguir dogmas ou doutrinas. É viver uma vida boa, seguir nossos valores” – ele disse concluindo o que viemos buscar.

7. Conhecer seus limites

Caminhar é democrático. Cada um faz como quer, o trecho que quer. É bonito de ver pelas trilhas famílias inteiras caminhando com as crianças. Pais e filhos de todas as idades. Muitos idosos com energia invejável (18% dos que caminham tem mais de 60 anos).

Ele demorou muito tempo para sair da minha lista de desejos porque imaginava que a única alternativa seria percorrer os 775 quilômetros desde St. Jean Pied de Port. Me achei meio falcatrua fazendo o meu trecho de 116 quilômetros desde Sarria, até perceber que esta era a escolha da esmagadora maioria. Segundo as estatísticas oficiais de 2018 este é o trecho mais utilizado. Só 10% dos peregrinos percorrem o caminho completo.

Para mim foi a escolha mais coerente. Antes de mais nada eu queria experimentar, saber como se sentiria. Precisava de uma prova antes de cair de cabeça. Além disso, sem nenhum preparo físico eu precisava de um desafio dentro das minhas possibilidades, e foi assim que estabeleci 20 quilômetros por dia como o meu limite. Sem culpa! Para mim já seria um super desafio.

São mais de 300 mil peregrinos por ano, vindos de mais de 200 países. 50% mulheres. Ainda assim, vi bem poucas mulheres sozinhas. E a cara de espanto de todas as pessoas que me perguntavam se eu estava mesmo sozinha me davam um certo arrepio. Pode ser a minha cara de quem está totalmente perdida ali (“não é por aqui a praça de alimentação?”) mas o fato é que não somos muitas.

Acho que teria gostado muito de percorrer estes quilômetros acompanhada. Mas fiz o que precisava e o que estava dentro das minhas possibilidades neste momento da vida. E acho que este é afinal sempre a melhor forma de fazer as coisas. O imperfeito sempre se revela mais completo e divertido.

8. Esse corpo que me pertence

Uma frase andava se repetindo na minha cabeça cada vez que me olhava: “esse corpo não é meu”. Acho que essa nem é a minha pior forma mas a falta de cuidado do último ano me fazia não gostar nem um pouco do que eu via. Como um bloqueio eu me dizia que essa não era eu, que eu não aceitava esse corpo e que logo tudo isso que não me caía bem iria embora. Eu o arrancaria à força.

Caminhando, contudo, senti uma enorme gratidão por esse corpo que me acompanha. Ele e eu somos um só afinal, e a verdade é que eu não tenho o tratado bem. Ele me levou por duas gestações maravilhosas, me suportou quando eu apertei todos os botões de ansiedade que o judiavam, ele aguentou o tranco durante tantos anos da minha infância e adolescência com púrpura, ele fez muito mais do que eu achei que poderia.

Como eu pude rejeitá-lo depois de tudo o que a gente viveu, do jeito mais cruel possível, dizendo que ele não era meu? 

Lembrei de tantas vezes que falando com outras mulheres nos diminuímos. Apontamos partes de que não gostamos, e sabemos ser cruéis nos adjetivos, de um jeito que não ousaríamos falar dos outros. A outra sabe que isso tudo é só um código pra dizer algo como “Imagina! Você está ótima!”. As duas estão mentindo, claro, mas nos parece mais sensato seguir assim do que de fato gostar do que vemos. Acho que isso é bem mais do universo feminino que do sexo oposto. 

Sonhamos para as nossas filhas vidas mais desprendidas, cheias de amor próprio, de aceitação, de não precisar se moldar mas se afirmar independente do olhar do outro. Fazemos isso ao mesmo tempo que reclamamos em alta voz da nossa própria aparência e soltamos frases tristes nos diminuindo, ainda que cheias de humor (tem que dar uma aliviada né?). Elas aprendem conosco assim. Ter filhos deixa tudo mais desafiador ou ao menos nos dá um motivo nobre para sermos o que achamos que deveríamos. 

Este corpo é meu sim, pensei afinal. “E me desculpe pelo descaso! Eu o agradeço de todo o coração. E prometo cuidar mais de nós”, com todas as imperfeições que vou aprendendo a amar.

9. A felicidade só é real quando é compartilhada

No filme “Into the Wild” essa frase aparece escrita num dos livros que o protagonista Alex estava lendo, dentro de um ônibus abandonado no Alasca, pouco antes da sua morte.

O real significado disso para ele nunca será realmente claro, mas para mim faz muito sentido. Percebi nestes poucos dias de solidão eletiva que a felicidade só me faz sentido quando posso dividi-la com as pessoas que eu amo.

É claro que precisamos encontrar este sentimento bom dentro de nós mesmos, e não há como responsabilizar ninguém neste mundo pelo que nos traz tristeza ou alegria, mas não conseguia pensar em absolutamente nada que me enchesse de propósito sem a minha família e amigos que amo.

Não faria sentido ler nenhum livro, ver paisagens lindas, rir de algo, se não pudesse contar para eles depois, dizer o quanto gostaria que estivessem ali ou o quanto são importantes para mim. Amá-los é o propósito da minha vida. Vê-los bem é o que me faz feliz.

Caminho de Santiago de Compostela The Brave New Life

10. Apenas dê o primeiro passo

As coisas são afinal bem mais simples do que parecem. Esperei tanto tempo para realizar este sonho. Coloquei tantos empecilhos. Imaginei tantos cenários.

É verdade que nem sempre podemos realizar nossos sonhos da maneira como julgamos “ideal”. E ainda que assim fosse, possivelmente a realidade nos mostraria algo novo, diferente. Sempre é possível fazer algo, o que está a nosso alcance naquele momento, com todas as nossas limitações. E ainda assim fazer o nosso melhor.

Não significa viver uma versão “beta” da vida, mas nos permitir começar. Dar o primeiro passo. Descobrir o que vem pelo caminho.

Caminho de Santiago de Compostela The Brave New Life

Bom! Espero que você tenha curtido o meu top 10. Para quem não iria pensar muito acho que pensei até demais! 🙃 Se quiser saber mais sobre o Caminho de Santiago clique aqui para ver dicas mais práticas sobre o meu roteiro e aqui para saber sobre como o Caminho começou.