Dilema Maternidade e Carreira e nossa busca por equilíbrio na Holanda

Eu me lembro exatamente do dia e do sentimento. “É impossível! Tem que ter um jeito! Tem que ter um caminho do meio aí, alguma coisa que eu estou deixando passar.” Eu conversava com uma amiga sobre como conciliar carreira e tempo com os filhos.

Para mim este tema sempre veio com uma certa indignação. Eu acredito que somos feitos de várias partes, sendo a profissional uma delas. Assim sendo, não seria positivo riscá-la de uma vez por todas do mapa sem algumas sequelas. Eu pensava que assim não seria uma boa mãe. Acabaria por virar uma daquelas pessoas amarguradas que reafirmam o quanto eram importantes até a terceira geração, contando milhares de vezes as mesmas histórias dos tempos áureos. Ou alguém que a todo momento diz o quanto ama os filhos, mas logo desenrola a lista de atividades estressantes que vem com o pacote, sem esquecer de incluir no discurso a parte sobre esta ser a profissão mais nobre de todas.

É natural que seja difícil. Ninguém se torna criança por ter uma criança em casa, então é de se esperar que depois de uma ou duas horas de brincadeiras um adulto peça arrego. O que você quer (secretamente ou não) é uma taça de vinho, conversa civilizada e Netflix. E aí a nobreza começa parecer uma meta difícil de alcançar.

A questão para mim é encontrar o equilíbrio. Aquele tanto de tempo necessário para construir uma intimidade verdadeira, que vem com a presença e o tempo de qualidade, sem para isso abrir mão de todo o resto.

Lembro de uma entrevista com Elizabeth Gilbert em que em certa altura ela fala sobre a diferença entre hobby, trabalho, carreira e vocação. Hobby, disse ela, é uma coisa que você faz por prazer, como karaokê. Você não necessariamente precisa ter um, mas eles são muito bons. Antes da TV todos tinham hobbies.

A segunda coisa é um emprego, e neste caso, é algo que você PRECISA ter. Segundo ela, mesmo que você tenha alguém que provenha comida e um teto sobre a sua cabeça, é necessário ser responsável por você neste mundo. E ele não precisa ser maravilhoso, você não precisa nem mesmo gostar do seu emprego, ele não o define, seu trabalho não é o que você é, ele só paga as suas contas.

“It’s a great point of honor, especially for a woman to have a job, to have a way to pay for yourself in the world. To have a freedom of mobility that gives you in the world, to be able to change your life if you need to, to take care of yourself, to be able to pull your own weight. You got to have a job. (…) Job, have one, it’s great. No big deal.” Elizabeth Gilbert

“É um grande ponto de honra, especialmente para as mulheres, ter um maneira de pagar suas despesas no mundo. Ter a liberdade da mobilidade, poder mudar sua vida caso necessário, cuidar de si mesma, ser capaz de segurar seu próprio peso. Você tem que ter um emprego. Tenha um, é ótimo, não é grande coisa”.

Eu concordo com ela em partes, acredito que se a família tem uma dinâmica na qual as coisas funcionam bem somente com um dos dois com um emprego, e ambos estão felizes com isso, excelente. Mas penso também que o trabalho dignifica o homem (e a mulher). É algo que faz bem. Até o conceito de se aposentar me soa um pouco distorcido, pois é quando paramos de aprender e criar que adoecemos. Também não acho muito inteligente a opção de passar 80% das horas do dia fazendo algo que não suportamos, somente para pagar as contas. Acho que a questão de aliar a felicidade ao trabalho é fundamental. Eu sei que é popular dizer que “cuidar das crianças” é o trabalho mais digno de todos, e sem dúvida há muita verdade aí, mas também não acredito que dê para confundir esta missão de vida com o título de trabalho e também não acho que seja papel só de quem está em casa.

Carreira, ela continua, é uma coisa que você também não precisa ter. É opcional. É algo que você deve ter se for apaixonado por algo. Se quiser devotar muita energia em prol de uma causa. Você até pode não curtir seu trabalho, mas se não amar sua carreira significa que está na carreira errada. Esqueça e arrume um emprego, ela sugere.

Por fim a vocação, algo sagrado, seu chamado. É aquilo que o faz querer levantar pela manhã, e não necessariamente tem relação com seus hobbies, carreira ou emprego. Você pode perder o emprego, alguém pode arrasar a sua carreira, mas ninguém pode tirar sua vocação de você. Ironicamente, criar seus filhos pode ser sua vocação, bondade pode ser sua vocação. Exercícios, viagens, escrever. Para a autora, essas quatro coisas – Hobby, Emprego, Carreira e Vocação – podem estar conectadas ou não.

Todos estamos procurando por uma única coisa que combine tudo isso, e é extremamente difícil de encontrar (adoro este tema e num outro momento falarei mais disso e sobre o Ikigai). Sua vocação pode ser cuidar do meio ambiente e seu trabalho barista num café. E tudo bem. E mesmo o exercício da vocação nem sempre é fácil. Existem momentos em que mesmo o seu chamado demanda muito trabalho, cansaço, persistência, sapos para engolir. Karaoquê por outro lado é sempre divertido. Em suma, a única que você realmente precisa ter é um emprego.

Tendo dito isso, a questão parece estar em encontrar o meio termo. Para mim, a resposta mágica parecia ser algo que conciliasse essas três crenças:

I. O plano deve ser flexível para se adaptar aos primeiros anos

Os filhos demandam mais tempo nos primeiros anos de vida. É óbvio que estaremos sempre presentes, mas à medida em que eles crescem o tempo na escola aumenta, eles se tornam mais e mais independentes e nós vamos sendo menos “solicitados” por assim dizer. Na minha então concepção sobre como deveria ser, o primeiro ano deveria receber dedicação dobrada. O que é um ano no curso da carreira e um ano na vida de um bebê? Ao passar destes poucos meses ele aprenderá a engatinhar, comer, brincar, “falar”, andar. É tudo muito rápido e desnecessário dizer que este tempo não volta atrás.

O primeiro ano não é necessariamente a fase mais divertida, mas é sem dúvida uma que demanda um super esforço, que eu não gostaria de delegar. Ainda assim, ficava um sentimento de que estar “fora do ar” por um ou alguns anos e voltar para o ponto de onde parei parecia impossível. A perspectiva de sair de licença maternidade por 5 meses e encontrar minha cadeira no mesmo lugar já parecia uma certa loucura. Em meus anos corporativos perdi as contas de entrevistas que fiz com mulheres retornando depois de um período materno. Eu me identificava, claro, mas a competição com outros candidatos “na ativa” era mesmo desleal.

II. Não trabalhar em definitivo não é uma opção

Trabalho pra mim é fonte de prazer e felicidade. Eu amo trabalhar, é bom, saudável, nos mantém ativos, espertos, aprendendo e trocando com outros adultos. Exercer meus dons para além da maternidade preenche e completa meu propósito no mundo. Além disso, como comentei acima, sempre achei importante ser independente financeiramente. Assim, a ideia seria parar ou diminuir o ritmo nos primeiros anos e depois voltar à ativa.

III. Mãe é mãe

Mãe é diferente de vó, que é diferente de vô, que é diferente de pai, e… você entendeu a ideia. Nas nossas discussões sobre o tema uma das possibilidades era que o Giu optasse por ficar um tempo em casa com eles e eu seguisse na vida corporativa, até porque adorava minha até então carreira. Mas a questão é que eu não queria delegar meu tempo de mãe. É algo que eu gostaria de fazer PESSOALMENTE. Avós são excelentes, mas achava uma certa sacanagem empurrar minha responsabilidade para quem já cumpriu sua obrigação neste quesito. E, sabendo que não é possível ser bom em tudo ao mesmo tempo, os filhos serão sempre a prioridade nesta matemática.

Nessas alturas você deve estar se perguntando como termina essa confusão. Naquele momento em que falava com a minha amiga eu não via como seria possível conciliar essas três verdades.

Um trabalho meio período não era algo factível. Empreender seria outro caminho, mas possivelmente demandaria um esforço ainda maior de início, coisa que não fecharia com o item 1 da lista – mais tempo para eles nos primeiros anos. Parar por um ano e voltar mais tarde significaria começar de novo e mudar completamente nosso estilo de vida. E na falta de alternativas, tocamos o barco da primeira herdeira sem nenhuma mudança no plano.

A Nick ficou comigo até seus 5 meses e com meus pais (com a ajuda da babazita) até completar 1 ano. A partir daí começou a ir para a escolinha meio período e com 1 ano e meio sentimos que era hora de mudar para o período integral. Estava difícil conciliar a rotina do sono e a logística da vida na função meio a meio. Com 6 meses ela foi comigo para minha primeira viagem de trabalho, e antes que ela tivesse um ano eu já teria viajado outras dezenas de vezes. Eu contei um pouco aqui e aqui sobre as agruras e prazeres deste tempo com eles que tem mudado a minha vida.

A questão é que quando o segundo barrigão apareceu (meu no caso) voltamos a repensar o esquema. Num final de semana preguiçoso numa pousada em Floripa eu falei mais uma vez sobre meu plano maluco para o Giu e, dessa vez, ele topou. A proposta era a seguinte:

Vamos para fora do país, passar uma temporada (que ainda não sabemos exatamente de quanto tempo), onde a gente possa aprender pra c*. No início eu me permito experimentar este tempo só com eles, com um primeiro ano 100% dedicado e depois tento fazer o que sempre quis fazer – estudar, trabalhar com algo diferente, escrever, ou o que quer que seja, aumentando aos poucos o tempo dedicado ao trabalho. A pressão da carreira fica menor, não abrimos mão de ter o básico coberto (já que lá daria para viver com o salário de um só por um tempo), no final deste período teremos todos aprendido muito e se tudo der errado voltamos (mais ou menos) de onde paramos.

Assim não viemos a procura de mais segurança, qualidade de vida pura e simplesmente, idiomas, dinheiro ou qualquer coisa do tipo. Deixamos uma vida bem mais confortável do que tínhamos procurando por mais equilíbrio de tempo entre estes dois mundos, proximidade com Deus e aprendizado.

E a pergunta que as pessoas mais nos fazem aqui (e nós nos fazemos também) é porque não poderíamos fazer exatamente isso no nosso país. Alguns dos motivos estão acima, mas para mim a questão está muito relacionada aos modelos de trabalho nada flexíveis que temos e o infeliz custo das coisas. A carga de trabalho é bem maior e mais estressante e é preciso trabalhar cada vez mais para se ter o básico coberto. É claro que estou generalizando, e espero que este post traga como a maré ideias de como levar este mesmo estilo de vida na nossa terrinha.

Infelizmente ainda não encontrei a fórmula mágica e se reinventar dá um trabalho danado. Não sei o que fazer com tanta liberdade. É preciso realmente pensar com profundidade se estamos dispostos a tentar, falhar, bater com a cara na parede mil vezes e tentar de novo.

Se você se interessa pelo tema, aqui neste post sobre Opções de Trabalho Flexível na Holanda para Pais & Filhos deixei as opções que pesquisei e considerei até agora na Holanda.

Para fechar, uma tradição minha é fazer um mapinha do meu ano, com um destaque para cada mês. Coloco ali uma foto que representa algo muito bacana que aconteceu na minha vida naquele período. Não é uma reflexão da família, é o meu painel, meus meses, minha vida.

A felicidade ou a importância de cada momento é algo bem particular, e muitos ali somente eu posso entender o quanto significam. Tem desde um teste positivo de gravidez até um café com um amigo ou o dia que aprendi algo pelo qual me apaixonei. Me emociono sempre ao ver minha vida passando por esses pequenos quadrinhos e me orgulho do caminho que fiz. O deste ano é ainda mais especial. Entre dezenas de perregues escolhendo as foto vi picnics, sonecas, sorvetes, sorrisos e um tempo mais que especial que dividimos. Um ano só nosso. Não sei o que vem pela frente, e honestamente me dá medo de escrever tudo isso aqui e não conseguir realizar o que agora me parece o certo a fazer. Ainda assim, não deixo de pensar o quanto tem sido maravilhoso, o quanto desejo mais e mais deste tempo e o quanto gostaria que todos neste mundo o pudessem experimentar também.

2018 – Ano só deles

2017 – Trabalhando muito e esperando o Théo

2016 – Trabalhando muito e viajando mais ainda

 

Ficou curioso em saber como é a vida na Holanda? Então dá uma olhada nessa sessão onde eu conto tudo sobre o mercado de trabalho mais flexível para a família, saúde, escola, alimentação, custo de vida e muito mais.