Em busca de sentido

Estou lendo um livro lindo, que estava na lista há anos, doído de ler… Man’s Search for Meaning, de Viktor Frankl, fala da experiência do autor em Auschwitz, um psicólogo no campo de concentração. Em tantos momentos o seu relato me traz para o que estamos vivendo. Guardadas obviamente as devidas proporções, pois estamos falando de uma das maiores barbáries da humanidade. Ainda assim é possível ver-nos ali, na perda da esperança e na proximidade da morte, mas também no crescimento espiritual e no amor em meio ao sofrimento.

Frankl é um neuropsiquiatra austríaco, fundador da Logoterapia e Análise Existencial, que tem como foco o sentido da vida. Na década de 20, com 15 anos começou a se corresponder com Freud, com quem se encontrou pessoalmente cinco anos depois. Com 37 foi deportado para o campo de concentração. Sua mulher, grávida na época, morreu de esgotamento no campo Bergen-Belsen. Além dela, perdeu seus pais e seu irmão no holocausto.

A narrativa do livro é bastante interessante, lembrando às vezes um pesquisador descrevendo as variáveis e resultados de um experimento e outras um psiquiatra extremamente experiente esmiuçando as diferentes reações humanas frente à barbárie. Na maioria das páginas, vemos contudo, um homem em meio a própria vulnerabilidade e sofrimento, entendendo o sentido da vida.

O que seu olhar acurado descreve são as diferenças entre os que resistem ao sofrimento, e os que sucumbem a ele. O que faz com que a vida perca ou ganhe algum sentido. Humor, esperança, fé, saudade. As condições em que uns adoecem e outros resistem. Os que conseguem manter alguma esperança no futuro e os que encontram sentido no próprio sofrimento.

Este texto não é uma tentativa de resumir as mensagens do livro. Gostaria que todos tivessem a oportunidade de lê-lo um dia. Compartilho aqui alguns dos meus trechos preferidos em 5 reflexões que me encontram em meio a estas páginas. Espero que algumas encontrem um lugar por aí também.

I.

“O amor vai muito além da pessoa física do ser amado. Encontra seu significado mais profundo em seu ser espiritual, em seu eu interior.

Em meio a ausência quase completa de humanidade, trabalhando em condições precárias em meio a neve, fraco e sentindo dor excruciante a cada passo, ele se refugia nas lembranças da sua esposa. Sem saber o que havia acontecido, ele se põe em longos diálogos com ela, em que é confortado e conforta. Neste momento transporta-se para outra realidade, onde se encontra com sua esposa. O passado está ali, o tempo todo. Ele nos pertence. Podemos voltar a ele sempre que precisarmos.

Ali descobre que o amor vai além da pessoa física de quem se ama. “Se o ser amado está ou não presente, se ainda está vivo, cessa de alguma forma de ser importante” . Não havia razão para saber naquele momento, o amor não estava na figura física dela, mas transcendia para seu espírito. Ali, neste lugar da alma, eles poderiam se encontrar.

Ainda que tão triste este pensamento me conforta. Vejo quanto amor ainda podemos sentir na ausência. É claro que o abraço faz falta, é claro que a presença física é importante, mas o amor não cessa ou muda em função disso. Ele permanece e talvez até aumente. Não há de verdade o que nos separe do amor de Deus ou do amor que temos uns pelos outros. Ele termina citando Salomão: Põe-me como um selo em teu coração, o amor é tão forte quanto a morte”.

II.

Nietzsche disse “Aquilo que não me mata me faz mais forte. (…) O que você experimentou, nenhum poder na Terra pode tirar de você. (…) Ter sido também é um tipo de ser, e talvez o tipo mais certo de todos.

Durante os duros relatos do campo de concentração eu ficava imaginando como seria para ele o momento da liberdade. Fartar-se, voltar para casa, tomar um banho, reencontrar as pessoas que ele amava. Mas é claro que as coisas não são assim, como os fragmentos perfeitos da nossa imaginação. Voltar é um processo. E o homem que volta é o mesmo que viveu tudo aquilo, é o homem transformado pelo sofrimento.

Ele conta que na primeira caminhada fora de Auschwitz, num campo de flores, ele e os companheiros não conseguiram sentir nada. Haviam perdido a capacidade de sentir felicidade. Um lapso veio ao ver as cores vistosas da plumagem de um galo, mas logo passou. Alguns meses depois, sozinho, ajoelhado num momento de redenção a vida dele começou outra vez.

Ele conta sobre a experiência de outros homens, que voltando para casa não encontravam quem esperavam abrir a porta. Sua presença parecia não fazer muita diferença para que os haviam ficado. “Nós não sabíamos o que estava acontecendo com vocês, e nós passamos por coisas difíceis também”, eles diziam. Como alguém que havia passado anos suspenso pelos fios de esperança destes reencontros sente-se ao voltar? Senti como se para eles tudo houvesse sido em vão. Qual seria o sentido tudo aquilo se ninguém jamais pudesse empatizar com tamanha dor?

Pensei nas minhas próprias expectativas na ausência. Teatros da minha imaginação que não encontram realidade na de mais ninguém. Cada um de nós têm sua própria existência como protagonista, e não sobra muito espaço para outros roteiros.

Quantas e quantas vezes fizemos também isto com outras pessoas? Ao nos encontrarmos com a dor emocional de alguém, nos esquecemos que o tamanho do sofrimento é sempre subjetivo, desproporcional ao nosso próprio, incomparável e respondemos com algo como: “Eu sei como é, também passei por isso”. Quando deveríamos dizer algo como: “Eu vejo você. Você é importante para mim e faz uma falta danada. Independe do que aconteça, eu amo você”.

Sei que o protocolo atual da boa saúde mental nos diz para ficarmos no presente. Mas o passado existe, ele está lá e faz parte de nós. Podemos visitá-lo quando quisermos se isto nos conforta. E o futuro é o que nos move. Se deixarmos de sonhar e fazer planos nossa vida perde um tanto de sentido. É saudável desejar boas coisas. E como eu sonho com o dia da liberdade para todos nós. Com quem irá abrir a porta. Ainda que eu saiba que será um processo e não um dia, quero muito poder dizer e ouvir: “Você fez uma falta danada. Que bom que finalmente está aqui. Durante todo este tempo, mesmo na ausência, eu amei muito você.”

III.

“Precisávamos parar de perguntar sobre o significado da vida e, em vez disso, pensar em nós mesmos como aqueles que estavam sendo questionados pela vida – a cada dia e a cada hora.”

Em uma das poucas oportunidades que teve de ajudar profissionalmente outros presos a encontrar motivos para continuarem vivos (a possibilidade de reencontro com um familiar, um trabalho a ser terminado) ele cita a famosa frase de Nietzsche: “Quem tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como”. 

Me incomoda um pouco a busca exagerada da nossa geração por sentido. Mas Frankle fala dele de uma forma muito concreta. Para ele o sentido da vida não poderia ser um só ou algo vago. É real e concreto, assim como as tarefas da vida são reais e concretas. Difere para cada homem e situação. Muitas vezes pode ser encontrado simplesmente na contemplação, outras em aceitar seu destino, carregar sua cruz, como ele diz. Aceitar seu sofrimento entendendo que ele é a única pessoa no universo que pode fazer isso. Sendo a forma como escolhe fazê-lo onde reside sua oportunidade.

“Mesmo no campo de concentração, onde outros homens imaginam que as reais oportunidades da vida passaram, é onde pode estar a verdadeira oportunidade e desafio. Bismarck poderia ser aplicado:” – ele lembra – “A vida é como estar no dentista. Você sempre acha que o pior ainda está por vir, e no entanto, já acabou.”.

IV.

A maneira pela qual um homem aceita seu destino e todo o sofrimento que isso implica, a maneira como ele leva sua cruz, dá-lhe uma ampla oportunidade – mesmo nas circunstâncias mais difíceis – para adicionar um significado mais profundo à sua vida.”

Outro trecho do livro extremamente tocante para mim é a descrição da morte de uma jovem. Ele, como médico, a estava ajudando. Ela sofria de tifo e poderia estar delirando quando disse a ele que conversava com a árvore que via pela janela. Pela pequena fresta ela poderia ver somente alguns poucos galhos, ele disse. “Na minha vida de antes eu era mimada e não levei a sério minhas realizações espirituais” ela falou. Frankle perguntou a ela se a árvore a respondia. Ela disse que sim. “Ela me disse: ‘eu estou aqui, eu estou aqui, eu sou vida, vida eterna.”

Essa passagem me emocionou. Por que será que consideramos com pesos tão diferentes realizações materiais e realizações espirituais? Um marco físico transforma nossa vida: a formatura, o primeiro emprego, uma promoção, a compra de uma casa. Mas subestimamos marcos e crescimentos espirituais. Desvalorizamos o que deveria ser mais importante.

E ironicamente, estes momentos vêm muitas vezes através do sofrimento. “Essas pessoas esqueceram que muitas vezes é apenas uma situação externa excepcionalmente difícil que dá ao homem a oportunidade de crescer espiritualmente além de si mesmo.”

Eu que sempre imaginei os piores cenários temo o sofrimento mais do que a morte em si. Creio que muitas pessoas pensam assim também. Mas para ele, que viveu um sofrimento tremendo, este sentimento têm outro significado. “Mas poucos tiveram a chance de alcançar a grandeza humana, mesmo através de seu aparente fracasso mundano e morte, uma realização que em circunstâncias comuns eles nunca teriam alcançado.”

Isso não significa não senti-lo, é claro. É preciso grande coragem para viver o sofrimento com dignidade. Em uma das passagens ele descreve um prisioneiro que estava extremamente doente e se recuperou, dizendo sobre sua doença: “Eu a chorei para fora do meu sistema.”

“Se existe algum sentido na vida, deve haver um significado no sofrimento. O sofrimento é uma parte inerradicável da vida, assim como destino e morte. Sem sofrimento e morte, a vida humana não pode ser completa.”, ele conclui.

V.

“Pode-se tirar tudo de um homem exceto uma coisa: a última das liberdades humanas – escolher a própria atitude em qualquer circunstância, escolher o próprio caminho.”

Esta é possivelmente sua citação mais importante, que resume grande parte do seu legado. A crença de que somos nós que escrevemos nossa própria história, não pela possibilidade de controlar o que nos acontece, mas por escolher o que faremos com o que o destino nos traz.

Entre dezenas de histórias de morte e vida, Victor fala sobre humor, saudade, choro, companheirismo, amor, esperança. Fala também sobre deixar ao acaso as decisões do que ele não poderia controlar. Em muitos momentos fala de Deus, e da sucessão de acontecimentos aparentemente aleatórios que o protegeram e o mantiveram vivo.

“E sempre havia escolhas a fazer. Todo dia, toda hora, oferecia a oportunidade de tomar uma decisão, uma decisão que determinaria se você iria ou não se submeter aos poderes que ameaçavam roubá-lo do seu próprio eu, sua liberdade interior; que determinaria se você se tornaria ou não um brinquedo das circunstâncias, renunciando à liberdade e à dignidade para ser moldado na forma do preso típico.”

Ao entrar em Auschwitz, Frankle levava escondido debaixo do seu casaco algo que considerava seu bem material mais importante: seu manuscrito, sua tese. Ele a perdeu logo no primeiro dia, junto com suas roupas e tudo mais. Sua única posse seria seu corpo nú e sem pêlos, como lembra. Durante aqueles anos contudo, ele a reconstruiu de uma forma como jamais poderia imaginar, respondendo a partir da própria experiência que um homem não é moldado pelas circunstâncias, que não é um produto do ambiente.

Há sempre uma escolha a ser feita, ainda que heróica, há sempre uma escolha.