Feminismo Cristão: loucura, contradição, utopia, justiça e amor. Tá certo isso?

Essa semana o mundo mais uma vez se mobilizou de maneira quase instantânea em torno de um tema, o antirracismo. Em meio ao movimento tão justo e carregado de dor, algumas coisas despertaram atenção: 1. uma enxurrada de telas pretas nas redes sociais, que indicavam a adesão rápida de alguém àquela ideia; 2. textos emocionais de pessoas brancas, que como eu não sabiam muito bem sobre o que estavam falando, mas queriam de alguma forma falar sobre seus próprios sentimentos; 3. discussões acaloradas e ideológicas sobre qual a melhor forma de combater o problema (com ou sem quebra-quebra, quem tem e quem perde a razão, qual o argumentos, quais as lentes históricas, cotas e hashtags).

Uma dessas discussões me foi especialmente marcante: o debate sobre a ideia de “Black Lives Matter” (Vidas negras importam) versus “All Lives Matter (Todas as vidas importam). Para mim estava claro que neste momento, onde o mundo discute a opressão e injustiça racial, a pauta estava para os primeiros. Como li em um comentário que não me recordo de quem “Os bombeiros têm como missão cuidar da vida de todos, mas eles dão prioridade às casas que estão pegando fogo”.

Ainda assim, para muita gente a ideia de que todos somos iguais é suficiente, ainda que na prática esteja óbvio que o tratamento dado não acompanhe a ideia. Essa mesma lógica a meu ver cabe ao tema do feminismo quando visto do ponto de vista Cristão.

Ser Cristão significa defender a igualdade, dizer não à injustiça e opressão. Isso inclui uma série de pautas, e neste sentido precisamos ser específicos a respeito de qual incêndio nos referimos.


Não é uma oposição ao homem

Para começar vale já dizer que feminismo não é o contrário de machismo.

Feminismo é a teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos, e pode ser posição de homens e mulheres. O machismo por sua vez prega a superioridade do homem sobre a mulher, e o femismo a superioridade da mulher sobre o homem. Não é disso que estamos falando.

O movimento feminista é amplo e têm várias vertentes e pautas, muitas delas com as quais como Cristã não compactuo. Por estas, inclusive, muitos dizem ser impossível ser Cristão e ao mesmo tempo feminista. No cerne da questão está contudo, mais uma vez, a igualdade e a justiça. Ou seja: proteção da mulher contra a opressão, respeito à sua individualidade e o reconhecimento do valor intrínseco da mulher como ser humano.

Isso tudo parece bastante óbvio mas acredite, não é. Casamento infantil, violência contra a mulher, desigualdade salarial e tantos outros temas como estes infelizmente ainda estão aí.

Mas se já estamos falando de uma visão Cristã, que têm como ponto central o amor e a justiça, por que precisamos de mais um rótulo? Ainda mais um assim tão imperfeito, como o feminismo?

Como Cristãos não fica óbvia a necessidade de tratarmos todos de forma igual? Sim, fica. Mas é o que acontece? Infelizmente não.


Todos são um

Como Cristãos acreditamos que Deus fez homens e mulheres à sua imagem e semelhança. No antigo testamento a mulher era propriedade do homem. Seu valor estava em gerar filhos e sua sexualidade era vista como ameaça, algo impuro que induzia o homem ao pecado. Tanto que cabia às adúlteras pena de morte, enquanto nada acontecia ao homem.

Jesus entretanto inaugurou uma nova fase, a do amor. Conversou com mulheres quando isso era impensável, as instruiu e teve importantes mulheres em seu ministério. O apóstolo Paulo disse “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:28).

Não há diferenças entre nós perante Deus, ainda que tenhamos diferentes papéis. Somos biologicamente diferentes, nos comportamos de formas diversas e nos completamos. Coube a mulher, por exemplo, gestar, papel que não pode ser delegado ao pai mais abnegado.

No recrutamento interno estavam dois candidatos, um homem e uma mulher. Entre as perguntas finais estava a seguinte: “Você pretende ter filhos nos próximos anos?”. Ela ficou sem jeito. Sentindo-se culpada disse que um dia gostaria de ser mãe, mas que não estava nos planos para agora, queria aproveitar a vida de casada, sorrindo desconversou falando sobre a alegria desta fase. Saiu já sabendo que havia perdido a oportunidade.

Assim, ao longo da história a mulher passou de propriedade do homem à criatura livre, e isso nos parece algo pré-histórico, mas veja bem, dando um salto gigantesco lá do velho testamento pra cá, no Brasil há somente 141 anos a mulher pode frequentar o ensino superior (ainda com acesso a poucas). Há 105 anos a Caixa Econômica Federal permitiu que a mulher casada possuísse depósitos bancários em seu nome (isso quando não houvesse oposição do marido). Há 88 anos as mulheres podem votar (a princípio direito somente de uma minoria branca e elitizada).  Há 58 anos o Estatuto da Mulher casada garantiu que a mulher não precisava mais de autorização do marido para trabalhar, receber herança e em caso de separação requerer a guarda dos filhos. Pasmem: só há 55 anos as mulheres têm direito ao CPF, e portanto podem abrir empresas em seu nome e somente há 14 anos a Lei Maria da Penha aumentou o rigor nas punições das agressões contra a mulher, ainda que o feminicídio seja crescente, especialmente em tempos de isolamento social.

Cito alguns dos marcos históricos acima não para falar das vitórias do movimento feminista, até porque muito disso está envolvido em uma série de questões políticas e históricas não necessariamente bonitas de se ver, mas essencialmente para mostrar que o acesso à direitos básicos por parte das mulheres é muito recente.

Tudo que descrevi acima cabe dentro de 4 gerações. Da minha bisavó até alguns anos depois do meu nascimento.

Esta é uma causa em construção. Assim, dizer que somos todos iguais não basta. É preciso falar de forma específica a respeito dos direitos da mulher, e defender a justiça é uma atitude Cristã.

Na entrevista final para a vaga de emprego o entrevistador disse: “Estamos muito preocupados com a sua situação. Você tem dois filhos pequenos e a vaga exige muita dedicação e viagens frequentes. Quem irá cuidar dos seus filhos durante a sua ausência?”. Ela respondeu que o seu marido o faria, e que nunca um entrevistador fez esta pergunta a ele. A vaga ficou para o outro candidato.


Chefes de Família

Com tantas figuras de autoridade representadas por homens (a participação das mulheres é ainda baixíssima em todas as esferas do poder e na tomada de decisões) é de se estranhar que em 2015, o Brasil já tinha mais 28,9 milhões de famílias chefiadas por mulheres. Este número mais que dobrou entre 2001 e 2015.

Segundo o IBGE, existem 11,6 milhões de famílias lideradas por mães solo –  isso representa mais de 1/4 das famílias brasileiras. E a resposta vem quando entendemos que mais da metade destas famílias vivem abaixo da linha da pobreza. Mulheres ganham 20% a menos que os homens, ainda que na média sejam mais escolarizadas, e estas, descritas acima estão na base do nosso sistema de exploração.

A concepção do homem provedor, chefe de família, e da mulher que têm sua esfera de poder dentro da casa (o então nobre posto de “dona do lar”) mudou. Não só porque depois da segunda onda do feminismo a mulher entrou no mercado de trabalho, mas porque nosso sistema atual tem como base a exploração destas mulheres, que cada vez mais tem que “dar conta” de suas famílias sozinha.

“Consideremos o caso de “Luo”. Mãe taiwanesa identificada apenas pelo sobrenome, ela abriu um processo em 2017 contra seu filho, reivindicando indenização pelo tempo e pelo dinheiro que investiram na criação dele. Luo criou dois filhos como mãe solo, colocando ambos na faculdade de odontologia. Em troca, esperava que eles cuidassem dela na velhice. Quando um dos filhos não satisfez suas expectativas, ela o processou. Em um veredicto inédito, a Suprema Corte de Taiwan ordenou que o filho pagasse à mãe 967 mil dólares como custo de sua “criação”.”

Trecho do livro “Feminismo para os 99%: um manifesto”, por Cinzia Arruzza, Heci Regina Candiani e Nancy Fraser.

Com a minha leitura rasa sobre este tema, me parecia óbvio que eu precisasse falar mais sobre isso, apoiar outras mulheres e trazer a causa da igualdade social à tona. Mas a verdade é que este é um problema estrutural.

Ao fazer isso o que eu queria para mim era somente ocupar um espaço igual ao dos homens num mercado que explora outras mulheres.

Ou seja, para que eu possa trabalhar em postos altamente especializados e bem remunerados, terei que contar com a ajuda de mulheres com salários bem mais baixos para fazer as atividades domésticas que eu não quero ou não posso fazer (lembrando que no Brasil ainda é comum termos o “quartinho da empregada” e somente em 2006 os empregados domésticos passaram a ter direitos trabalhistas garantidos por lei).

“Eu vivia como todo homem. Como eu não sou um abusador, um homem agressivo, eu vivia tranquilamente a minha vida (o meu machismo) com a maior tranquilidade. Nem notava. Eu tinha empregada doméstica, entende? Isso é uma coisa muito interessante. O homem brasileiro liberta a mulher dele do serviço doméstico, porque ele escraviza as mulheres mais pobres, entende? Eu não tinha contato com o meu machismo.”

Pedro Cardozo, Ator, em entrevista ao programa “Provocações” da TV Cultura em 2019.

Além disso precisarei delegar boa parte do tempo de cuidado dos meus filhos, assim como dos idosos da família. Estas mulheres por sua vez, terão que contar com a ajuda de uma rede de suporte já carente para cuidar de seus próprios filhos. Precisarei também trabalhar cada vez mais para que meus filhos tenham acesso à uma educação de qualidade (cada vez mais cara) para possam no futuro competir nessa selva de pedra onde agora me encontro.

Descobri que meu feminismo era feito de pura hipocrisia. Queria pra mim algo insustentável sem que eu mesma explorasse a outras.

Falo sempre em delegar para outras mulheres porque é assim que a nossa sociedade entende o cuidado, como uma função feminina. É com orgulho que muitos dos nossos pais dizem que “nunca trocaram uma fralda na vida”. Era o modelo da época, mesmo com mulheres já no mercado de trabalho, há talvez menos de 30 anos atrás. Até mesmo o papel do magistério foi evoluindo a partir do papel da mãe educadora. Hoje ainda é raro vermos homens ocupando este papel como educadores no ensino primário, isso para além dos que estão na função dos educadores físicos. Da mesma forma o cuidado dos idosos, dos doentes, da comunidade.

Assim, na nossa lógica capitalista, homens e mulheres dividem este espaço de exploração social, que precisa remunerar pouco o trabalho de uma grande base da população (em grande parte mulheres pobres e negras) para se manter no topo da pirâmide onde poucos estão. Neste contexto, meu feminismo de encontrar maior balanço entre vida profissional e familiar é bastante raso, elitista e furado.

“O trabalho de produção de pessoas sempre existiu e sempre foi associado às mulheres. No entanto, as sociedades antigas não conheciam a divisão nítida entre “produção econômica” e reprodução social. Apenas com o advento do capitalismo esses dois aspectos da existência social foram dissociados. A produção foi transferida para as fábricas, minas e escritórios, onde foi considerada “econômica” e remunerada com salários em dinheiro. A reprodução foi relegada “à família”, onde foi feminizada e sentimentalizada, definida como “cuidado” em oposição a “trabalho”, realizada por “amor” em oposição ao dinheiro. Ou assim nos disseram.”

Trecho do livro “Feminismo para os 99%: um manifesto”, por Cinzia Arruzza, Heci Regina Candiani e Nancy Fraser.


Que paternidade é essa?

Não é à toa portanto que entre as mulheres com idade ativa no Brasil apenas 52% esteja inserida no mercado formal, enquanto o índice entre os homens é de 72%. Parte destas mulheres não consegue espaço no mercado formal e acaba empreendendo por necessidade, de forma informal e totalmente à parte dos direitos básicos do trabalhador. Em 2017 as mulheres em trabalhos informais ganhavam o equivalente a 46% daquelas empregadas em vagas formalizadas. 

A outra parte dessas mulheres acaba tendo que dar “seu jeito” para sustentar sozinha sua família, sem a rede de suporte, recebendo bem menos que homens na mesma função e sem um parceiro que assuma junto a responsabilidade. O Censo escolar de 2011 mostrou que 5,5 milhão de estudantes não possuem o nome do pai na certidão de nascimento.

É muito comum (e acredito que cada um de nós conheça pelo menos uma história assim) ver um filho nascido de um relacionamento frágil ou ainda imaturo, ser deixado pelo pai como se fosse um erro de percurso e criado pela mãe. Este homem segue a vida, eventualmente se casa, tem filhos e a estes segundos considera sua família. O primeiro foi um erro de percurso, o segundo foi o oficial. Ainda que este pai cumpra com sua obrigação mínima de pagar a pensão que cobre o básico, não foi pai. E nos parece sensato que seja a mãe a responsável pela criança, enquanto o pai segue a vida em busca de seu plano ideal. Qual é na real diferença entre o primeiro e o segundo filho? E porque achamos tão normal que seja assim?

Casaram e depois de três anos engravidaram. A criança foi desejada mas o casamento não deu certo. Separaram-se logo depois. A pensão chegava religiosamente, e no começo o pai dividia os finais de semana. A mãe fazia questão de ser integral. O pai logo se enamorou e fixou morada do outro lado do oceano. Não havia nada que o prendesse. Casou-se, tem 3 filhos e sente-se agora pai. A primeira criança recebe uma visita paterna de dois ou três dias, a cada 5 anos.

É naturalmente mais fácil para os homens virarem as costas quando se deparam com uma gravidez indesejada. Caberá a mulher decidir e suportar o futuro desta gestação e da criança. Caberá a ela ainda provar a paternidade e exigir algum respaldo financeiro do pai na justiça. Caberá a ela ser mãe e pai, o que significa algo muito maior do que sustentar a criança financeiramente.

É claro que existe o outro lado. As coisas (graças a Deus) estão aos poucos evoluindo e hoje vemos um movimento dos homens no sentido de repensar a masculinidade. Até porque eles são também vítimas dessa construção social sobre o que é ser homem, provedor, que não se vulnerabiliza e não chora. Vemos hoje homens que participam, que tomam a frente e dividem o papel do cuidado, ainda que exista um duplo padrão neste sentido.

Doutor e pesquisador na universidade decidiu participar ativamente da criação do primeiro e único filho. A mulher seguiu tendo a prioridade na carreira e ele ficou como quem ia “matar no peito”. No começo era a estrela do departamento, saia às 17 hs em ponto para buscar na creche. Chegava mais tarde em dia de consulta. Não podia ir no dia da febre. Os aplausos foram diminuindo até o dia em que o chefe pediu uma reunião formal. A pergunta foi direta: “Cara, o que está acontecendo? Cadê a sua mulher?”.


Meu Corpo, Minhas Regras

Outra pauta recorrente do feminismo e muito polêmica quando tratada no meio Cristão é a sexualidade. A terceira onda do feminismo trouxe o empoderamento e  liberdade sexual. No sentido do corpo, duas coisas precisam ser citadas:

Primeiro que existe uma vulnerabilidade física evidente da mulher perante o homem. Ou seja, eles são mais fortes e podem se valer de violência para oprimir ou violentar. No Brasil 1 em cada 4 mulheres acima de 16 anos já foi vítima de violência, algo em torno de 16 milhões de mulheres em 2018. 42% destes casos acontecem dentro de casa.

O corpo da mulher é visto como uma extensão do espaço público, especialmente se não estiver acompanhada de um homem, e isso se agrava no caso das mulheres negras.

Ser mulher é já ter experimentado algum tipo de assédio no transporte público, na escola, na família. A pesquisa “A Revolução Delas” do Grupo ABC mostrou que 98% das brasileiras já sofreu algum tipo de assédio e 81% já deixaram de fazer algo ou de ir a algum lugar por medo de serem assediadas.

Assim, meu “meu corpo, minhas regras” não significa apenas liberdade sexual, mas também que este corpo não pode ser violado. Que ele não é público, e que tem valor. A exemplo do slogan “não é não” utilizado na campanha contra o assédio no carnaval de 2020 em 15 estados brasileiros.

Vale lembrar que somente em 2018 entrou em vigor a Lei da Importunação Sexual, tornando crime a prática de atos libidinosos, de cunho sexual, como toques inapropriados sem consentimento da vítima. A pena é de um a cinco anos de prisão.

O segundo ponto em relação ao corpo da mulher é que a sexualidade feminina foi por muito tempo (e ainda é) um grande tabu. É como se o prazer sexual coubesse apenas ao homem, devendo a mulher preencher um espaço de santidade e recato. A figura de Maria, a mãe virgem, pura e santa, construiu muito deste ideal fantasioso. Vemos contudo na figura dela, e de tantas outras na mulheres da bíblia, um exemplo de mulher forte. 

O sexo é parte da vida, e dentro dos princípios Cristãos é algo belo e saudável. É criação de Deus, assim como tudo mais. Tanto homem quanto mulher Cristãos devem seguir os mesmos princípios no que diz respeito à sexualidade. Sendo o corpo templo do Espírito Santo, a necessidade de ambos por zelar por ele é igual.


Submissão e Subjugamento

Talvez a questão mais polêmica de todas em relação ao feminismo no mundo Cristão seja a submissão. Paulo disse em Efésios 5 que nós deveríamos nos sujeitarmos uns aos outros, por amor a Cristo. Ou seja, que devemos estar numa postura de serviço uns para com os outros, se fazer menor, servir. Na sequência ele diz então que a mulher deve ser submissa ao seu marido, assim como a Deus. E vai ainda mais longe ao falar sobre o papel dos maridos, dizendo que estes devem amar suas esposas da mesma forma que Cristo amou a igreja, a ponto de dar sua vida por ela.

O que ele descreve é uma relação totalmente baseada em amor, não uma disputa por poder.

Vemos no próprio Jesus o que significa uma liderança através do serviço. Que ensina, que se faz o último, que lava os pés dos seus discípulos e dá a vida por aqueles que não o receberam.

Vemos esta relação de amor e submissão em toda a história de Jesus, e na própria figura da Divina Trindade. Jesus, mesmo sendo Deus, se coloca abaixo da autoridade do Pai. Jesus estava presente na criação do mundo e mesmo ali o Espírito Santo de Deus já pairava sobre as águas. Perfeita aliança de submissão e amor. Se para o Cristão o homem é o sacerdote da casa, é somente porque o faz numa liderança de amor e serviço.


Feminista ou não feminista? Eis a questão

Ser Cristão é crer na palavra de Deus e viver em conformidade com ela. Nada além disso. E como Cristãos podemos e devemos ser a mudança que queremos ver no mundo. Isso significa agir na direção do que é certo, e uma das formas de fazer isso é através do diálogo, da informação e do amor.

O feminismo, como movimento, têm uma série de pontos e formas de reivindicação que não estarão alinhados com as crenças Cristãs.

Mas o fato de que o tema da igualdade de gênero precisa de atenção especial é inquestionável, e precisamos de Cristãos entendendo e vivendo isso.

>> Precisamos de mulheres mais presentes na igreja, não apenas em papéis de suporte ou secundários, mas assumindo ministérios importantes. Precisamos resgatar a história das mulheres da igreja, tão pouco contada. Precisamos de mais porta-vozes.

>> Precisamos de homens que respeitem o sagrado no corpo de outra mulher, sua dignidade e sua voz. E precisamos fazer valer meios de justiça para quando isso não acontece e a mulher é violada física ou emocionalmente.

>> Precisamos de um mercado de trabalho que remunere de maneira igual homens e mulheres, e contrate de forma anônima, sem considerar idade, sexo, cor, gênero ou raça.

>> Precisamos que homens e mulheres dividam em casa de forma igualitária a criação dos filhos, o cuidado com os idosos e com a comunidade, entendendo que este é um papel da família, e não da mulher enquanto figura da mãe cuidadora.

>> Precisamos não de homens que “ajudem” em casa, mas que compreendam que a gestão da casa e das tarefas domésticas é de todos os moradores, inclusive das crianças, conforme suas idades e limitações.

>> Precisamos que as mulheres também abram mão da autoridade deste espaço para que os   homens possam entrar. Só assim dividiremos a carga mental que hoje sufoca. Homens que não apenas vão ao mercado, mas que sabem o que precisa ser comprado. Que não apenas levem os filhos na consulta médica, mas que percebam que estão doentes e marquem a consulta.

>> Precisamos de homens que assumam sua responsabilidade como pais, que sustentem seus filhos, não apenas financeiramente, mas que sejam pais e formadores independente do seu relacionamento com a mãe da criança.

>> Precisamos de homens e mulheres que entendam que  têm as mesmas premissas quanto ao corpo e à sexualidade. Não há diferença entre nós. O que não cabe a um, não cabe ao outro.

>> Precisamos compreender o trabalho reprodutivo como fundamental para nossa sociedade. Afinal, é ele que sustenta o modelo capitalista em que estamos, e para que ele ocorra com a mínima dignidade precisamos suportar a mulher que gera.

>> Precisamos de um sistema que entenda o ônus profissional inevitável que sofre a mulher depois da gestação. Ela estará meses longe do mercado de trabalho, precisará amamentar e nutrir seu filho depois do nascimento e nos primeiros anos de vida da criança não terá as mesmas chances de atualização profissional dos seus colegas. 48% das mulheres deixam seu trabalho em até 12 meses depois de se tornarem mães. Enquanto o mercado de trabalho formal não tornar este processo mais flexível e humano, acolhendo estas mulheres, continuaremos crescendo em desigualdade e pobreza.

>> Precisamos estimular um empreender feminino não por necessidade, mas por um partilhar de seus talentos com o mundo. E num mundo automatizado de tantas formas precisamos ampliar o olhar feminino, criativo e sensível para todas as áreas.

>> Precisamos olhar para a mulher negra, para a mulher pobre e reparar este modelo de exploração que cresce a partir da injustiça e desigualdade;

>> Precisamos de um modelo de trabalho mais inteligente, que abrace as necessidades da família como um todo, flexível, dinâmico, criativo. Longe do modelo do homem provedor das 8 às 18 hs que já não cabe mais.

>> Precisamos ensinar aos nossos meninos um novo modelo de masculinidade, que permita um viver mais humano, conectado com suas emoções e fraquezas.

>> Precisamos libertar nossas meninas dos estereótipos que criamos e que as limitam e diminuem. Precisamos as fazer livres para brincar descalças, para correr, pular muro, explorar, opinar, criar e se descobrir para além do universo das princesas educadas e resgatadas pelo príncipe. Precisamos inserir nossas meninas no mercado da tecnologia.

>> Precisamos que mulheres criem entre si redes de suporte. Que se apoiem, que denunciem injustiças. Precisamos responsabilizar os criminosos, dando o suporte e a segurança para que as mulheres o façam. Precisamos de sororidade entre nós.

“O próprio ato de recusar a opressão, já é uma vitória.”

Fala da personagem Bahar (Golshifteh Farahani) no filme Filhas do Sol, de Eva Husson.

Assim como no meio Cristão temos diferenças entre denominações, concordamos no que é central: a fé em Cristo. Entendo o movimento feminista da mesma forma. Não precisamos concordar em tudo, se o que nos une é a luta pelos direitos da mulher.


Não basta apenas não sermos machistas. Precisamos de mais homens e mulheres que entendam a relevância de tudo isso e do impacto que a desigualdade de gênero causa a todos nós. Não precisamos só de feminismo. Precisamos de uma atitude Cristã à favor da mulher.