Is this how it’s supposed to be

Antes de nos mudarmos eu sabia que ia precisar de uma ajuda profissional para encarar esse novo eu. Então procurei uma terapeuta, a Marly Ronchi Pereira (que foi mais que uma terapeuta, foi uma mãe!) e em nossas conversas disse a ela: “Eu não sou essa pessoa, eu não sei ser mãe. Pensa numa pessoa corporativa, essa sou eu”.

Claro que ela me disse muitas coisas que estão me ajudando a desconstruir essa crença, algumas delas partilhadas aqui, mas de fato,  me fez refletir sobre o que significa este tempo que eu e os meus pequenos estamos vivendo.

Eu terceirizei boa parte dos primeiros anos da Nicole. Não sei se de fato nós tínhamos um relacionamento mais próximo do que ela tinha com os avós, tios ou com as professoras. Quando se tem muitas pessoas ao redor cada um desempenha um papel na vida da criança, o que é fantástico (avós mimando, tios brincando, professores ensinando), mas parece que o meu era deixado um pouco de lado.

Pode parecer que eu estou sendo muito dura comigo mesma, mas essa é a verdade. Claro que eu me esforçava ao máximo para fazer o meu melhor para todas as partes, mas a competição era desleal. Eu via a Nick umas duas horas durante o dia, então, por mais que nos empenhássemos em fazer valer o tempo, não era de qualidade. Eu sempre amei o meu trabalho e me desesperava a ideia de passar horas dentro de casa só com os meus filhos.

Nós brincávamos com o fato de termos uma filha um tanto geniosa (aqui a professora chama de “strong will” rsrsrs) e em como era quase impossível para mim arrancar um beijo dela. A verdade é que ela estava um pouco cansada de tanta correria e nós duas não nutríamos uma intimidade de mãe e filha.

Estar longe priva o resto da família de os ver crescer, e esta é sem dúvida a parte mais difícil. Tento compensar fotogrando e filmando tudo, numa revista virtual do crescimento que segue pelos grupos de WhatsApp. O engraçado é perceber que no caso da Nick era eu que estava do outro lado da tela, recebendo vídeos da primeira vez em que ela engatinhou, comeu algo, das brincadeiras com o vô no parque, descobrindo sem querer que ela já tomava café com leite e caldo de cana.

Parece que agora estou do lado certo da tela.

Não escrevo para encorajar ninguém a largar o trabalho e virar pai ou mãe integral. Acho que eu mesma não consigo fazer isso. Acredito realmente que somos feitos de várias partes, e a maternidade ou paternidade é uma delas. Mas uma certeza para mim sempre foi a de que, durante o primeiro ou os primeiros anos, era preciso que a balança pesasse um pouco mais para o lado deles. Durante a faculdade não parece normal que a gente deixe de fazer algumas coisas para mergulhar naquela experiência? Quando estamos de namorado novo não acabamos pisando um pouco na bola com os amigos? Certo ou errado, é a paixão. Cuidar de alguém em formação também exige algum esforço extra.

Minha agonia sempre foi por achar um caminho do meio. Nem tanto lá, nem tanto cá. Se há cinza é porque nem tudo é preto ou branco. Nestes nossos meses aqui tentei fazer o meu melhor para dar conta de todas as necessidades que tínhamos para nos acomodarmos, ao mesmo tempo em que estudei inglês (e continuo frenética buscando cursos, porque sonho em estudar aqui), fiz frellas (olha que lindeza a página que o pessoal da Teken criou pra mim) e ainda escrevi milhares de linhas nesse blog! Mas, tentei também que a maior parte do meu tempo fosse deles. Porque agora isso é possível e porque não sei o quanto vai durar (não só por mim, mas porque eles nos dispensam rápido demais!).

Se essas coisas passam pela sua cabeça, talvez estes quatro aprendizados meus possam fazer a sua reflexão continuar avançando, te levando a amar ainda mais suas escolhas. E, acredite, sempre há uma escolha.

1. Pais profissionais

Todo mundo fala no quanto é difícil cuidar dos filhos, da casa e todas as tarefas tolas que temos que fazer. Não vou chover no molhado e tem dias  de fato que eu acho que vou enlouquecer. Pego o telefone para mandar uma mensagem para o Giu, do tipo “eu me demito, vamos pensar em outra forma de fazer isso”, mas outro dia ele me lembrou também que enquanto trabalhava eu mandava várias mensagens do mesmo tipo (e bem mais assustadoras). Porque nos parece coerente reforçar nossa inteligência emocional e se esforçar ao máximo para alcançar algo para uma empresa, marca ou mesmo para a própria carreira, mas parece loucura quando o fazemos para os filhos? Se há coisas que precisamos aprender e habilidades a adquirir para sermos melhores pais ou pessoas, por que não encarar com a mesma vontade? Eu AMO aprender coisas novas a este respeito.

Back when all my little goals seemed so important
Every pot of gold fill and full of distortion
Heaven was a place still in space not in motion, But soon
I got you
I got everything
I’ve got you
I don’t need nothing
More than you
I got everything
I’ve got you
This weight’s too much alone
Some days I can’t hold it at all
You take it on for me
When tomorrow’s too much
I’ll carry it all, I got you

(I Got You – Jack Johnson)

2. Agora é comigo!

Outro dia vendo a dificuldade da Nick em se comunicar com as outras crianças em Holandês orei a Deus para colocar uma pessoa nas nossas vidas que a pudesse ensinar. Alguém que a pegasse pela mão e fosse tipo um anjo ensinando a ela, imaginei uma professora maravilhosa, uma santa vizinha, um clube, enfim, qualquer coisa nesse sentido. Naquele mesmo dia conversando com a querida Cleo Alves ela do nada me perguntou: “Gi, você já pensou em homeschooling?” Eu fiquei tipo assim “Whaaaatt??? Mais essa? Impossível!”. Bom, foi aí que me caiu a ficha que essa pessoinha sou eu! E até então eu não tinha feito nada para ajudá-la. Nadica! Aqui vários pais fazem homeschooling, inclusive com 4 filhos em idades escolares diferentes. Para mim parece hercúleo, mas simplesmente me apaixonei pelos princípios de educação da Charlotte Manson, também apresentada para mim pela Cleo.

Este vídeo abaixo fala um pouco disso. Ele foi compartilhado pela Jhuli Matos, mãe de dois que está empreendendo (posso chamar de empresária para ficar mais chique? Se você não comeu um biscoito dela ainda não conheceu a felicidade. Clica no link pra ver e se encantar).

Eu nunca pensei de fato em tirar a Nicole da escola convencional e adotar somente o ensino em casa. Apesar de muitas vezes falha e até cruel, ainda acho a escola um ambiente muito enriquecedor para as crianças, e mesmo os percalços fazem parte. Ainda assim, achei os princípios fantásticos para educação de maneira geral e acho que poderei adotá-los para ajudar a Nick no aprendizado do inglês ou qualquer outra coisa que eu queira compartilhar com ela. Se quiser conhecer mais clique aqui.

3. Eles não precisam de tanto

Eu pendo diariamente por querer ser a melhor mãe que eu possa ser – aprendendo tudo o que eu puder sobre – ou e por tão facilmente seguir meus instintos e deixar rolar. As duas coisas tem funcionado e mais uma vez o equilíbrio parece ser a melhor resposta. De fato, o que as crianças mais precisam é de um ambiente seguro, onde se sintam amadas e possam crescer com saúde. Para isso, realmente não se precisa de muito. Outra amiga querida, a Fe Volpi, psicanalista e ser humano incrível que amo, me disse em uma das nossas conversas sobre o dilema materno x profissional justamente isso, acrescentando o quão maravilhoso é para os filhos crescerem vendo os pais felizes, realizados em suas profissões, se curtindo como casal e curtindo a vida. Não há exemplo melhor a dar senão o da felicidade.

Love is the answer, at least for most of the questions in my heart
Like why are we here? And where do we go?
And how come it’s so hard?
It’s not always easy and
Sometimes life can be deceiving
I’ll tell you one thing, it’s always better when we’re together

(Better Together – Jack Johnson)

4. Que seja divertido

Em todo o sofrimento envolvido na mudança, a Denise, amiga e determinada colega de trabalho, me lembrou de seguir meu próprio conselho. As pessoas sempre me lembram de coisas que eu disse (e que eu juro que não) mas dessa eu lembro, e muito provavelmente foi em um dos nossos feedbacks. Eu falava que o trabalho, ou qualquer empreitada dessa vida, tem que ser bom, tem que ser divertido. Senão, qual seria a motivação para levantarmos da cama todas as manhãs?

Elizabeth Gilbert, autora de Comer, Rezar e Amar, certa vez foi perguntada sobre a pressão para escrever depois de ter alcançado um sucesso tão grande  após seu primeiro livro. Ela respondeu algo que repetimos para nós mesmos antes de virmos várias vezes. “Não deixarei que a melhor coisa que aconteceu comigo se torne uma coisa ruim”.

Tem que ser bom, porque passa rápido demais! Não sei até quanto este sonho dura, e se é só o hoje mesmo que temos, então que venham os picnics, os museus, as sonecas, as birras, os perrengues e o que quer que seja, que vamos encarar – sempre que possível – nos divertindo à beça.

Créditos da foto para o querido Daniel Machado, projeto Habitudes.
Is this how it’s supposed to be

(Upside Down – Jack Johnson)