Let’s go Dutch!

Eles são conhecidos como o povo mais alto do mundo (as mulheres tem em média 1,71 m e os homens 1,84 m). Uma prova disso é que só vejo as minhas sobrancelhas no espelho do banheiro. Algumas pesquisas também apontam para grandes narizes. Mas, depois de alguns meses aqui foram outras características que me chamaram atenção no estilão holandês de ser.

Assim, correndo o risco de incorrer no pecado de todos os estereótipos desse mundo (afinal, como é um típico brasileiro?) vou tentar listar características que meu recente olhar estrangeiro me permitiu ver, antes que virem paisagem.

Transparentes

Os janelões das casas que escancaram absolutamente tudo que há lá dentro refletem muito bem o jeitão holandês de ser (é isso mesmo, as casas são em geral envidraçadas e sem cortinas, o vizinho já conhece todos os meus pijamas). Eles são diretos, pragmáticos. Dizer o que se pensa é algo natural (e por quê mesmo deveria ser diferente?). Se um médico diz para você que não tem certeza sobre o diagnóstico e irá lhe encaminhar para um especialista, isso não quer dizer “vixe, tô morto e ele não quer falar”. Quer dizer exatamente “ele não tem certeza, mesmo sendo médico, e preciso da opinião de um especialista”. Simples assim. Confesso que, apesar de muitas vezes me espantar com a sinceridade, gosto deste jeito direto. Nós, latinos, damos tantas voltas para no fim ainda deixar nas entrelinhas o que queremos dizer, que escutar exatamente o que o outro quer falar é um alívio. 

O layout das salas privilegia as áreas comuns e a vista, e não a TV de plasma. E haja limpa vidro!

Corretos

O holandês faz as coisas como devem ser feitas. É preto no branco. Sem jeitinho, sem “veja bem”. São honestos, organizados, param o carro para você atravessar na faixa, mesmo que não exista nenhum carro atrás por quilômetros (não espere isso no centro de Amsterdam), separam o lixo, pagam os impostos. Tudo nos conformes.

Eruditos

Eles são formais, polidos. Não são fãs de toque (incontáveis gafes tentando dar três beijinhos), mas extremamente educados. Os e-mails devem começar com todos as saudações possíveis. Ele falam várias línguas e consideram uma grosseria quando alguém não os cumprimenta antes de solicitar algo – o que soa muito básico, mas só me lembrei o quanto somos assim quando fui parada por uma turista brasileira na rua com a frase “Whéreee is Zara?” sem nenhum “licença, bom dia ou olá” para dar uma acalentada na relação.

Isso vale para dar bom dia ou boa tarde ao motorista e cobrador do tran também. Uma amiga que, por timidez, costumava dar um sorrisinho tímido ao motorista todos os dias levou uma bronca holandesa (que quer dizer, daquelas!) quando esqueceu de passar seu cartão: “Você não sabe passar o cartão, você não sabe falar bom dia!”. Uau, a partir daqui um alto e bom “Goedemorgen” pra você 🙂 O que nos leva ao próximo ponto.

Esquentados

Falar o que pensa + gosto por seguir as normas = virar uma fera quando alguém pisa fora da linha. Eles falam mesmo. Tipo bronca da mãe nível 5. Daquelas de deixar a gente sem reação e ensaiando por dias no chuveiro o que ia dizer pra eles se tivesse coragem ou vocabulário (quando eu aprender eles vão ver só uma coisa). Mas tão rápido quanto brigam já estão dando risadas. Vão do inferno ao céu em 5 minutos, e tá tudo certo. Talvez a entonação e a sonoridade da língua potencializem este efeito. No tran, quando o motorista fala algo no microfone, eu sempre fico entre sair correndo por alerta de bomba ou levantar para dar lugar a um senhorzinho.

Desprendidos

Eles não gastam cinco minutos da vida (e muito menos 5 euros) tentando impressionar alguém. As coisas são simples, a vida é bem menos complicada. Aniversários de criança são um bom exemplo. Você convida 5 ou 6 amigos muito próximos (se você foi convidado solte fogos – importante destacar que não há nenhuma necessidade de inventar desculpas para consolar os não convidados), faz uma lista dos presentes desejados (todos bem baratinhos e práticos de achar), pendura umas bandeirinhas no parque e leva um bolo. Pronto! Tá feita a festa.

Econômicos

Eles têm certa fama de pão-duros. Não sei quanto a isso, mas dá para ver que gastam o dinheiro de um jeito bem consciente, usando uma expressão da moda podemos dizer que são um tanto minimalistas. A expressão “Let’s go Dutch” significa rachar a conta do restaurante, ou seja, cada um paga o seu. Pra quem não bebe está ótimo!

Tolerantes

Um olhar superficial para Amsterdam pode lembrar Coffee Shops e Red Light District, mas a Holanda é muito mais que isso. É surpreendentemente familiar e tranquila, e há de se reconhecer o quanto as pessoas aqui são abertas e tolerantes para receber de maneira acolhedora tantas culturas diferentes. Amsterdam é uma das cidades mais multi culturais do mundo, com mais de 145 diferentes nacionalidades convivendo em harmonia (imagina o caldeirão). O Expact Center aqui é uma experiência fora do normal em simpatia e eficiência. Em menos de meia hora estávamos com a documentação de toda a família pronta, sem falar no chocolate quente que nos esperava e brinquedos  para as crianças. Me coloco no lugar de quem nasceu e cresceu aqui, vendo uma enxurrada de pessoas de vários cantos do mundo ocupando os lugares, e é de tirar o chapéu para a recepção.

Ativos

Elem amam o sol e atividades ao ar livre. É só faltar pra gente dar valor, não é mesmo? Eles também curtem sair de casa com frio e chuva, mas no sol é uma loucura, tipo final de campeonato. Em todo lugar tem gente correndo, andando de bike (claro), skate, patinete, patins, barco, caiaque e tudo mais que se pode imaginar. Difícil é achar um holandês acima do peso. Eles não trabalham mais do que devem e valorizam muito a família. E como curtem ter filhos! Fazem logo um time de futebol. Aqui você não passa na frente por estar de carrinho de bebê, entra na fila dos carrinhos. Dá para dizer que eles curtem mesmo a vida.

Simples

Com tudo isso dá para dizer que vivem um estilo de vida prático, simples no sentido mais amplo do termo. Tem gente que estranha, mas acho o máximo quando peço pão na padaria ou um bolinho num café e eles pegam com a mão mesmo, põe no prato e entregam. Afinal de contas, não foram aquelas mesmas mãos que prepararam o pão? Vamos deixar de frescura então. Adoro!

Eu me surpreendi positivamente com vários comportamentos holandeses e espero conseguir acrescentar alguns deles aos meus modos depois deste breve estágio cultural. E você? Se reconheceu em alguma dessas características? Deu vontade de “holandezar” um pouco? Então dá uma lida no resto dos conteúdos da sessão Vida na Holanda pra ver na real como é viver aqui.