Não queremos filhos perfeitos

Ouvi essa frase essa semana da minha amada cunhada, Jana, que tem uma princesa em casa. Doce e responsável, a Bea tenta já aos nove anos (como tantos de nós, inclusive) fazer o seu melhor sempre. Mas, assim como nós, talvez ainda demore algum tempo para que ela entenda na prática, e de verdade, que não dá para ser boa em tudo.

Li uma entrevista esta semana (indicação da Mi, minha irmã do coração) do filósofo sul-coreano Byung-Chul Hab que dizia como hoje confundimos auto-exploração com realização. Temos a impressão de que tudo é possível e está ao alcance da ponta do dedo, é só querer de verdade. Se não somos bem sucedidos em qualquer coisa que possa existir nesse mundo a culpa é todinha da nossa falta de vontade ou brilhantismo.

“Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout. E a consequência: Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros. É a alienação de si mesmo. Byung-Chul Hab

Num mundo onde o Mark Zuckenberg ficou bilionário com 23 anos e a Kefera tem mais de 11 milhões de inscritos no seu canal do YouTube eu só posso ter deixado passar alguma coisa. Definitivamente há algo de muito errado comigo.

Como disse o filósofo “ser observado hoje é um aspecto central do ser no mundo”. E queremos ser vistos como bem sucedidos, felizes, no topo do mundo. As quintas-feiras sempre me lembram disso, com os seus #tbt reforçando tudo o que há de mais extravagante e charmoso nessa vida. No meio de tantas delícias “sem filtro” (culpada também) não sobra muito espaço para a realidade e as tantas fragilidades que fazem parte da vida. Queremos ser sempre nota 10.

Não me lembro de ter ouvido o termo “burnout” com tanta recorrência como nos últimos meses. Só hoje ouvi a expressão em três diferentes e tristes histórias. Estar neste mundo de tantas possibilidades, como bem comparou a Mi (que by-the-way é Michelle Bonatti, agora Ph.D. pela Humboldt University of Berlin), é como se pudéssemos comer tudo só porque estamos num buffet boca livre. O lance é que, meu amigo e minha amiga, não podemos, e os efeitos vão muito além de uma puta dor de barriga.

Li uma entrevista na Flow magazine em que psicóloga e professora de mindfulness Karin Rekvelt falava um pouco sobre os efeitos dessa parada brusca no nosso corpo e mente. Segundo ela, podemos seguir por muito tempo consumindo além do que deveríamos e confiando na nossa força de vontade, mas há um certo ponto, uma linha a se cruzar, a partir da qual o retorno é bem mais difícil. Depois de atingir este limite não faz mais diferença simplesmente tirar os fatores criadores de stress. Não adianta sair de férias, recuperar as forças num bom final de semana. Segundo ela, serão necessários de 6 a 9 meses para que o corpo se recupere de um colapso nervoso e até 2 anos para um burnout.

“You can keep going for a very long time on willpower and last reserves, but the moment comes when your body gives up. It’s like a telephone that keeps managing to charge its battery only a little bit at a time, and some functionalities don’t work properly anymore”. Karin Rekvelt

“Você pode continuar por muito tempo pela força de vontade e suas últimas reservas, mas chega o momento em que seu corpo desiste. É como um telefone que consegue carregar sua bateria apenas um pouquinho por vez, e algumas funcionalidades já não funcionam mais como deveriam”.

Quando estamos extremamente focados em algo, aprimoramos sim nossas habilidades mas perdemos a chance de enxergar o cenário completo. Somos como uma lanterna direcionada, com um foco exato sobre o objeto de nosso interesse. É efetivo, mas perdemos a visão periférica, a imagem de todo o quarto que guarda o tal objeto e o ambiente ao seu redor. Num universo com milhares de possibilidades não deixamos assim muita chance ao acaso e à criatividade.

Em nossos meses aqui a diversidade foi um dos maiores aprendizados. Pessoas de diferentes culturas e momentos. Com elas crianças nos mais diferentes estágios, encarando desafios de adaptação, idioma, clima e muito mais. Perdi um pouco a ansiedade dos marcos de crescimento. Cada um vai no seu tempo, entendendo as suas limitações.

Eu fui uma criança que como a Bea só me sentia realizada com o 10. Lembro da minha mãe falando “Minha filha, se você está nesse desespero por isso imagina como vai ser quando for um problema de verdade! Como vai ser quando você crescer?!”. Pois é mãe, a luta interna continua, numa batalha para encontrar o equilíbrio entre a cobrança e o “deboísmo”.

É claro que queremos o melhor para nós e para nossos filhos. Queremos que eles façam judô, natação, ballet, inglês, capoeira, teclado, aula de flauta e sabe-se lá Deus mais o quê. Tudo com o desejo genuíno de um futuro próspero. As muitas horas de trabalho dos pais também precisam encontrar uma corelação com muitas horas de tempo ocupado para os filhos. Afinal, sem isso não daria para pagar pelo judô, natação, ballet, inglês, capoeira, teclado e aula de flauta, não é mesmo?

É por isso que levanto a bandeira da Jana. “Eu não quero um filho perfeito, quero um filho real”. Alguém que se importe com os outros, que seja do bem, que saiba a diferença entre o certo e o errado. Que devolva o troco. Que tenha sua própria opinião. Que saiba ser gentil.

Não quero um poliglota que tenha que fugir para um sabático no Nepal aos 25 porque não aguenta mais a opressiva vida no escritório. Aos 9 quero que ele encontre o prazer da brincadeira, aos 15 o frio na barriga do amor, aos 20 as delícias da primeira liberdade e aos 30 o prazer de fazer o que quer que ele tenha escolhido fazer.

Não sabemos a fórmula da felicidade para nós ou para eles. Vamos aprendendo juntos no caminho. Não se trata de criar fracassados alegres, mas ser humanos reais, cheios de defeitos e virtudes. Seguimos comemorando conquistas que fazem sentido só para nós. Nossos próprios marcos de crescimento. Daqui pra frente essa frase segue comigo. “Não quero um filho perfeito, quero um filho real”.  E assim cada tropeço e puxão de orelha virá acompanhado de um suspiro aliviado. “Ufa… estamos no caminho certo”.