O que a China nos ensina sobre o tempo

E se o universo pudesse lhe conceder uma hora a mais todos os dias? Um dia de 25 horas. Você aceitaria? O que faria com este tempo? Minha primeira reação foi “Claro! Uma hora a mais! Usaria ela para dormir, sem dúvida!”. A verdade é que bem pouco tempo depois eu estaria novamente reclamando a minha falta de tempo (ou de horas de sono) porque nossa tendência é ocupar cada minuto com alguma atividade. Contemplar, só estar, parece muito difícil para os ocidentais.

Esta reflexão foi o esquenta para os 60 minutos de fala da filósofa Christine Cayol, autora do livro “Why Chinese people have time” (ainda sem versão em português). Na palestra, organizada pela School of Life de Amsterdam ela falou sobre a diferença entre o tempo vertical e o horizontal, entre tempo espiritual e eficiente, tempo qualitativo e quantitativo, fazendo sempre uma relação entre nossa forma de pensar e a perspectiva cultural que hoje experimenta na China.

Parisiense, impaciente e amante de artes, mudou-se para a China 16 anos atrás por amor (a convite do namorado) e está lá até hoje, onde mantém um espaço cultural para reunir artistas chineses. Nunca viveu como uma expatriada, mas aprendeu mandarim, conviveu com nativos todo o tempo e se viu imersa na cultura. A partir daí seu olhar para o que há de mais abstrato nas relações lhe permitiu estar mais atenta sobre como veem o passar do tempo no seu novo lar.

Deixo então um resumo dos 4 pontos mais interessantes que eu trouxe deste nosso “tempo juntas”:

1. É impossível perder tempo

Depois de muito tempo esperando para ser atendido no dentista o homem queixou-se com a secretária: “Vocês acabaram de me fazer perder 1 hora!”. Mas como isso seria possível? Ninguém “perde” uma hora. Ela está ali, acontecendo. É impossível perdê-la. O que é possível sim é ocupá-la fazendo algo diferente do que era esperado, mas perder não dá. Talvez dê sim para ganhar algum tempo se olharmos pela ótica da oportunidade. “Ganhar” uma hora no dentista para ler o jornal, para ligar para um amigo, escutar uma música.

A autora conta que durante todos os anos em que viveu na China nunca ouviu ninguém reclamar de falta de tempo. Não há um planejamento claro de como será a semana e o fato de andar sempre ocupado não é nem de longe motivo de orgulho ou importância. Agendar um jantar com amigos com 2 ou 3 dias de antecedência em Paris (e em qualquer lugar que eu conheça também) parece uma loucura! É preciso de mais tempo discutindo as agendas (e talvez a criação de um grupo no What’s App pra isso) do que o tempo necessário ao encontro em si. O mesmo vale para reuniões. É uma insanidade.

Na China, segundo ela, mesmo com um mercado pulsante e profissionais que trabalham duro, isso não acontece. A expressão “eu não tenho tempo” simplesmente não é dita. Sobre os planos, tem-se uma boa ideia do que será feito na segunda, um rabisco da terça e pára-se por aí.

É preciso deixar espaços para as oportunidades.

Nos primeiros anos da sua estadia por lá ela conta que recebeu uma ligação do reitor de uma universidade a convidando para uma palestra. Logo depois de se sentir lisonjeada veio o choque: sua apresentação seria em dois dias. Ela teve três reações imediatas: 1) “Quem ele pensa que eu sou? Uma segunda opção? Certamente o palestrante planejado para o dia havia desistido“; 2) “Eu não estou pronta! Mesmo sendo para falar sobre um livro que EU escrevi, eu não estarei segura sobre o assunto em tão pouco tempo”; 3) “Eu tenho muito o que fazer!” (não tinha). Ela se desculpou, disse que não havia tempo suficiente, ao que o reitor respondeu: “Mas são só duas horas de vôo até aqui. Como não há tempo?”. Ela perdeu essa oportunidade e levou algum tempo até que entendesse como aproveitar as outras que viriam.

2. O tempo não é seu inimigo

Segundo Christine tempo é uma questão de representação cultural. Pense por um instante no que ele significa para você: Qualidade? Quantidade? Algo mecânico? Biológico? Uma corrida? Contemplação?

O ocidental briga com o tempo o tempo todo. É como se o tempo fosse um inimigo. Alguém de quem estamos constantemente correndo. É algo que precisa ser controlado, dominado, fatiado, previsto, medido.

Um pouco disso vem de uma certa doença ou epidemia relacionada ao uso do celular. Nunca antes na história um único aparelho incorporou tantas funcionalidades do cotidiano. Este é na verdade um insight trazido pela Jocelyn K. Glei do Hurry Slowly (que a propósito é uma ótima dica de podcast sobre como ser mais produtivo, criativo e resiliente através do simples ato de “slowing down”). O celular é hoje um ímã de atenção. Ele é como uma máquina do tempo com todas as nossas memórias, um salão fictício onde encontramos os amigos, é nosso relógio, rádio, TV, calculadora, jornal, livro, boletim meteorológico, banco, professor de meditação ou qualquer outra coisa no mundo que se possa imaginar. Por isso estamos literalmente viciados nesta pequena tela, na sua resposta instantânea para tudo e de certa forma somos controlados por ela e suas interrupções.

Nós estamos correndo uma maratona sem fim, para chegar em um lugar que não sabemos onde é. Quem somos nós para controlar o tempo? Deus? Não podemos somar um só minuto a nossa existência. O tempo tem poder em si mesmo. É preciso começar a vê-lo como um aliado, um amigo.

Time has power in itself.

3. A pergunta não é quando, mas com quem

Na China o tempo é como um amigo. Imagine que você está num projeto, ansioso para fechar um negócio mas o cliente não pára de mudar o que havia sido combinado, nada está decidido e você está mais que impaciente. A pergunta que se faz é “QUANDO?!”. Quando ele vai decidir? Quando vamos terminar? Qual é o dead line? (nome mais horrível esse, inclusive). Mas se seu amigo, que está neste projeto com você, lhe diz “Fique tranquilo. Não é o momento ainda, vamos esperar. Na hora certa virá”. O que de fato importa: quando o projeto terminará ou o tempo, o aprendizado e a confiança que você irá partilhar com o seu amigo enquanto durar a empreitada? 

Sei que amizade não necessariamente pagas as contas, mas a impaciência também não presta um serviço melhor. Um pouco desta representação que fazemos do tempo pode ser visto na obra abaixo, os Embaixadores, que mostra todo o poderio e domínio do homem ocidental com todos os seus instrumentos sobre o tempo, ainda que com eles não possa controlar a morte.

The Ambassadors (1533)

Outra visão bem diferente entretanto pode ser vista abaixo, com dois amigos sobre a névoa. Não há muito que se possa ver entre as nuvens, mas os dois estão juntos contemplando a montanha. A obra se completa ainda com um poema. A mensagem, portanto, é: liberte-se dos planos, aproveite as pessoas que estão ao seu lado.

A questão não é portando quando, já que isso não podemos controlar, mas com quem.

Two friends in the moonlight – Shitao 1695

4. Não tente controlar. Ele virá

Nossa percepção de tempo é linear, horizontal. É como se andássemos numa linha reta, sem olhar para os lados, em direção ao nosso futuro. Para o Chinês a dimensão de tempo é bastante diferente. Ela é cíclica, como ondas, que vem e vão, no curso das estações. O tempo não precisa ser previsto, antecipado, precisa ser sentido. É um processo, tem seu próprio ritmo. Precisamos de um estado de espírito livre e disponível para percebê-lo. Se colocarmos coisas boas nesta onda ela retornará também coisas boas no próximo ciclo.

Na dimensão vertical o tempo encontra seu equilíbrio. É como olhar para cima por alguns instantes para meditar, orar, contemplar, ver a si mesmo, o lugar onde se está, sentir o tempo. É a busca pela inspiração, conhecimento. Não é cronológico, é espiritual, interno. Neste sentido o presente em si mesmo não existe, porque ele sempre será um link entre passado e futuro, inseparável destes dois.

E para todos os assuntos em que a mente reverbera a pergunta do “quando” – vou achar aquela pessoa, vou conseguir aquele emprego, vou me mudar desse lugar, vou terminar esse projeto – vem a resposta como uma onda – Não tente controlar. Vai acontecer. Na hora certa.

Don’t try to control. IT WILL COME.

O Chinês pensa com muita atenção (e intuição) na hora certa de começar as coisas. Esta será a melhor hora para começar um novo relacionamento? Um novo projeto? A obra de nova casa? Impensável para nós chegarmos a conclusão de que seria melhor esperar pela próxima primavera. Mas quem sabe porque esquecemos de ouvir nossos próprios instintos e queremos a todo custo nos provar capazes. No fundo sabemos que o sofrimento era previsível, já que não era a hora.

Esta mesma sensibilidade serve para “ouvir” o que diz o corpo. Um médico chinês mereceu todo um capítulo do livro pela simplicidade e peculiaridade das indicações. Numa das primeiras consultas, ela conta ter sido interrompida pelo médico já no início das suas indagações e questionamentos que buscavam entender a raiz dos problemas. “Páre de perguntar porquê”, ele disse. “Você deveria dormir mais, tomar água quente e sorrir”. “Algo mais?”, a autora perguntou. “Sim, use meias. O seu corpo precisa de mais calor, e ele vem dos seus pés”. Nossa! Como eu ia curtir um médico assim!

Por fim, se o tempo é uma onda não dá para controlá-lo, mas é possível observar seu movimento, entender seus ciclos, prever algumas possibilidades e mandar coisas boas a cada maré. Esta é a nossa parte. E é possível dizer muito a respeito do futuro somente por aí.

A autora fechou a fala com a citação abaixo. Pode chamar de clichê, mas é verdadeira, e acima de tudo, linda!