O que eu aprendi em 1 ano sem notícias

Já começo me justificando: o primeiro ano depois de uma mudança drástica na vida exige outras prioridades, e, não, não foi intencional que eu estive por todo este tempo desligada do mundo. O fato é que durante os últimos 12 meses eu consumi uma dose mínima de notícias e isso provocou um impacto em mim que está me fazendo pensar (ainda mais) sobre como o quesito “atualidades” deveria entrar na minha vida.

Se pela introdução você já sentiu um impulso de “poxa, que interessante, vou tentar esse negócio aí” já vou direto para o final da história para dizer que a sensação ao final de contas não é nada boa. Ou seja, não tente fazer isso em casa.

Morar num país onde não se fala a língua significa essencialmente não fazer parte daquela cultura na totalidade. No idioma estão impregnados milhares de sinais sobre como se leva a vida, e grande parte disso pode ser visto através das lentes da TV aberta. Ou seja, o que essa gente acha engraçado? Que tipo de programas eles vêem? O que consideram descolado? E por aí vai.

Não ver TV isola, não assistir jornal local nos afasta ainda mais do senso de pertencer. Não foram poucas as vezes em que aparentemente só eu não sabia que algo assustador já tinha acontecido, ou pior, iria acontecer. A forma mais simples de definir seria a expressão “viver na caverna”.

Aí você deve estar pensando: “Nossa, essa aí é da caverna mesmo! Defendendo a TV com milhares de opções disponíveis na Internet”. Sim, verdade. Aqui existe um canal on-line em inglês onde é possível ler algumas notícias. Mas ele desce mais como uma revista para expatriados do que um jornal local.

Minha saga começou então lá pelos 5 ou 6 meses de abstinência.

Tentei a CNN de Londres pela manhã. Desisti um mês depois quando percebi que dos 80% que eu podia entender, 50% tratava do tempo, 25% do Brexit e 25% de alguma feira de hortaliças em algum lugar do Reino Unido. Próximo!

Fui para os sites de notícias gerais, tipo o Quartz, onde a curadoria é bem mais ampla e se pode saber de tudo. A sensação que eu tinha era mais de estar lendo a Super Interessante do que de fato um portal de notícias. Aí veio minha primeira revelação: quando eu escolho o que quero ler eu crio meu próprio viés de mundo.

O fato é que eu não queria ler sobre pais que esquecem filhos no carro, gente baleada, fome desumana. Mas quando eu via no feed que a Sabrina Sato desfilou no carnaval 3 meses depois de dar à luz, bang! Clique! Por quê meu Deus? Por quê?

Descobri que eu não poderia confiar em mim mesma para escolher as minhas notícias. Choquei.

Além das questões óbvias do porquê este tipo de notícia nos atrai, é claro que vamos sempre tender aos assuntos mais facilmente digeridos. Como disse Danilo Venticinque nessa matéria:

“Caetano Veloso estaciona no Leblon” é uma informação que absorvemos instantaneamente. “ONU acusa Coreia do Norte de crimes contra a humanidade” exige algum esforço. As notícias mais relevantes são, na maioria das vezes, as mais monótonas. A culpa nem sempre é do repórter. Alguns assuntos são naturalmente mais áridos do que os outros.

Alain de Botton: “A escola não nos ensina a lidar com este tipo de notícia”.
Eu vou saber se você clicar! hahaha!

Alain de Botton escreveu um livro a este respeito: The News: A User’s Manual. Nele o autor fala, com maestria como sempre, porque nos é tão difícil lidar com as notícias. Como a imprensa trata da informação de um jeito completamente confuso e redundante, porque nos sentimos atraídos por desgraças, porque precisamos de celebridades, porque brotam comentários cheios de ódios em todas as notícias, porque não conseguimos nos associar verdadeiramente com a dor dos outros nas notícias internacionais, o declínio do fotojornalismo e muito mais.

Seguindo a minha saga, pensei então em quem poderia fazer isso bem por mim. The New York Times, claro, um dos jornais mais lidos no mundo. Começamos a nos dar bem até que ele gentilmente me bloqueou pedindo para que eu pagasse a sua mensalidade, já que estava lendo o feed sempre. Justo, mas colega, você também não está 100% coberto aqui.

Eu precisava de notícias mais específicas sobre a Holanda e sobre o Brasil, que a propósito só aparece no noticiário internacional quando a coisa está preta ou quando estão fazendo piada sobre a nossa política (infelizmente muitas notícias no último mês). É até bem interessante ver o que o resto do mundo fala sobre nós, mas é como ouvir outra pessoa falar mal de parente, você precisa escutar de alguém “da casa” pra saber a real.

G1 então? Tristemente lembrei que, assim como o pessoal de Londres, o feed basicamente girava em torno de poucos temas: tragédia, futebol, BBB e novela. Assim que eu vi de novo a Sabrina Sato fechei correndo a tela e li a cobertura do último escândalo sob a ótica gringa (no FaceBook porque ainda não fiz a assinatura ouch!!).

Por fim entendi que, além de um possível aumento da ignorância, o que a ausência de notícias fez comigo foi aumentar terrivelmente meus níveis de egoísmo.

Sem ver os problemas dos outros me vi totalmente absorta nos meus. Minhas crises viraram o centro. Falta de leite era tipo apagão na Venezuela. Perdi a referência da empatia. Assim também como as minhas vitórias passaram a ser mais relevantes do que assuntos bem mais sérios, e batalhas maiores correram rápido demais no meu scroll por aí.

Ainda estou me recuperando da abstinência (quem ganhou o Oscar?), tentando doses diárias ainda pequenas de realidade pra não chocar demais. Mas de fato percebi que, se for pra fazer dieta, que seja por uma semana. Um ano já virou reeducação alimentar de notícias e isso eu ainda não fiz direito.

Fazer a própria curadoria e de fato entender o que está acontecendo como um pedaço da história recém escrita dá trabalho demais.

Termino cheia de saudades do meu amigo Chico Pinheiro, que por muitos anos me acordava com tudo mastigadinho. Com ou sem viés, ele didaticamente me alimentava com um pouco de tudo, na minha língua, enquanto eu na preguiça mental só me preocupava em tomar café.

Brigada Chico 💕 Então… não tá pensando em vir pra Holanda?