OMG! I’ve never been this far away from home

Há algumas semanas passamos dias gostosos passeando por Portugal. Não planejamos a viagem da forma como deveríamos, mas de certa forma nutríamos o desejo de estar ali já há bastante tempo. Por anos sonhamos em ir e por um motivo ou outro nunca tinha dado certo. Pois bem, fomos, voltamos, e no avião voltando para Amsterdam uma ficha caiu. “Pra onde estamos voltando? Pra casa?”. Não consegui segurar as lágrimas de decepção.

Não sei explicar porquê mas alguma coisa dentro de mim esperava secretamente que este passeio concluiria os meses em que andamos turistando por aí. E alguma coisa estava errada no meu plano, já que não estávamos voltando para onde deveríamos.

De fato é muito fácil viver em Amsterdam como um eterno turista. Mais da metade das pessoas que vivem aqui não são holandeses. A cidade é do mundo e todo mundo parece estar de passagem. Gente vem de todos os cantos para trabalhar com tecnologia (especialmente homens, que criam uma população flutuante de mulheres buscando o que fazer, mas isso é assunto pra outra hora), e uma certa desconexão compartilhada naturalmente se cria. Ninguém é daqui então tá tudo certo.

A fama de festeira da cidade talvez seja outra faceta que não ajuda a aprofundar raízes. Há turistas de segunda a  segunda, mas é no final de semana que eles enchem as ruas como maré alta, prontos para celebrar. Andar pelas ruas no centro num sábado à tarde é certeza de encontrar pelo menos duas trupes de despedida de solteiro em fantasias divertidas. É a Vegas Europeia, onde tudo é permitido e esquecido.

O bairro em que moramos tem um jeito diferente de nos lembrar que não somos daqui. É uma área praticamente livre de turistas e onde muitas vezes o inglês passa com alguma dificuldade. Como é de se esperar, há mais afinidade entre os iguais. Os holandeses rindo das piadas que só eles podem entender e os de fora se desculpando por provavelmente estarem no lugar errado. Todos cientes dos seus papéis.

Eu e ela, fazendo as pazes

Desde que chegamos destas férias me pego pensando no que significa voltar pra casa. Há quem diga que nossa casa é onde a gente está. Eu não concordo. Alguém pode passar meses num hotel, hospital ou numa casa de repouso, e ainda que toda sua família esteja lá, aquilo não seria exatamente algo pra chamar de lar.

Casa pra mim é onde encontramos conforto. É onde estão memórias afetivas, além das pessoas que amamos. É onde sabemos onde estão as coisas, e elas servem aos nossos propósitos. É quando sabemos os nomes das ruas e conseguimos chegar em algum lugar sem o Maps. É onde deixamos algum registro. Um boletim na escola, um atestado médico ou a marca do bumbum em algum banco esperando o mesmo ônibus por anos.

Mas dá para ter mais de uma? Acho mesmo que sim. Sempre amei a minha cidade, mas me apaixonei por tantas outras por onde passamos. A frase “moraria aqui fácil” saiu da nossa boca com mais frequência que coragem. Amsterdam não foi uma delas, mas tenho que reconhecer que minha cara fechada foi mais pelo medo da mudança do que por algo real.

Conhecendo as pessoas aqui vamos compartilhando histórias de quem troca de casa como que de roupa, sem perder as raízes. Essa semana conheci uma mexicana que veio para a Holanda fazer um master, onde conheceu o marido Paquistanês. Logo depois se mudou para a Bélgica por conta do trabalho dela, e depois para Dubai por conta do dele, e agora estão de volta. Em cada país um filho surgiu e assim as famílias de babel se formam. E isso é só um exemplo entre tantos outros.

Essa semana li a história de uma ilustradora chamada Meera Lee Patel. Os pais indianos partiram para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor antes dela e a irmã nascerem. O resultado foram duas meninas com os pés em cada canto, que não se sentiam nem americanas, nem indianas.

“I wasn’t Indian, and I wasn’t American. I was, and am, somewhere in-between. (…) We carry with us the hardships and emotional weight of our families while attempting to carve out our own identities and future, without feeling like we are abandoning our culture and heritage.”

“Eu não era indiana e não era americana. Eu estava, e estou, em algum lugar entre essas duas coisas. (…) Nós carregamos conosco as dificuldades e o peso emocional de nossas famílias enquanto tentamos criar nossas próprias identidades e nosso futuro, sem sentir que estamos abandonando nossa cultura e herança “.

Ainda que o sentimento a princípio seja de confusão total, eu acredito que as então chamadas third culture kids (criadas em uma cultura diferente da de seus pais durante uma parte significativa de seus primeiros anos de desenvolvimento) acabam encontrando seu caminho. No caso da nossa ilustradora, ela eventualmente entendeu que era justamente na diferença que estava a sua beleza e as referências indianas hoje são a marca registrada do seu trabalho.

Os adultos são menos intuitivos (e inteligentes às vezes), então naturalmente o processo pra mim levará mais tempo. Quando saímos do aeroporto eu sabia onde estava. Conhecia o caminho e pela madrugada nos guiamos pelas ruas que já eram familiares.

Pra criar lembranças precisamos só de nós e um lugar

Quando o sistema de som do tran anunciou algo (que não entendemos em absoluto) eu soube que… definitivamente não estava em casa. Mas que estávamos bem, gratos, felizes, juntos.

Ironicamente só hoje percebi um painel em uma esquina perto de onde moramos. Lendo, com a Nicole voltando de bike da escola, o Théo no carrinho e eu com flores e uma baguete na bolsa retornável do mercado ri de mim mesma: “Home is where the heart is”.

Parece que sim, e a resposta está sempre bem embaixo do nosso nariz. Casa é onde está o nosso coração. E o meu agora está em paz.

 

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