Sobre as aparências

Que nada é bem o que parece a gente sabe, mas teima em esquecer. Pelo caminho os pedaços de realidade vão nos flagrando e mostrando que as coisas têm bem mais de um lado. Há duas semanas você começou a estudar numa nova escola, agora uma de “big girl”. Esperamos muito por esse dia e a sua empolgação estava nas alturas por ter merecido essa tão desejada passagem. Te deixei lá com um beijo, você fez joinha e se sentou no meio dos grandes, insegura mas orgulhosa. O tombo foi quase do tamanho da alegria quando você entendeu o que de fato te esperava.

Sei que dezenas de situações deste tipo ainda vão te causar desencanto, mas até lá você será big girl demais para lembrar o que estamos aprendendo juntas agora. Nestas últimas duas semanas cada dia teve seu próprio drama, todos causados por pequenos desconhecimentos. Você não entende a língua e assim o que um dia será muito simples hoje é um pesadelo. Suas poucas horas lá causam crises de choro, de raiva, de cansaço, de apatia.

Ainda assim, a cada manhã você repete uma nova instrução e vai confiante por ter aprendido como responder àquela situação, que possivelmente nunca mais acontecerá da mesma forma. Não temos errado no mesmo. E cada dia em que te busco de coração partido vemos juntas algo que não pensávamos ser assim.

Aquela professora da nossa primeira visita, que meses atrás parecia ser duríssima, estava brincando alegre de trenzinho com as crianças. A senhora que nos atrapalhava a passagem e parecia merecer um olhar impaciente estava na realidade se despedindo dos netos e chorando discretamente ao vê-los de longe. O amigo que não queria brincar na verdade tentava de proteger.

E assim a vida segue, mostrando uma camada de cada vez, só aquela que podemos entender por hora. Como num jogo de bem-me-quer-mal-me-quer vamos tirando pétala por pétala, na esperança de sermos amados. A cada novo começo você vai sentir alguma desconexão. Um novo emprego, um relacionamento que começa ou termina, os primeiros dias (ou meses) de qualquer coisa.

Olhando de perto vai descobrir que todo mundo carrega um tanto de tristeza e alegria. Mesmo quem parece ter tudo sob controle tem suas dores e todo mundo conhece o medo de não ser suficiente. Acredite: todos somos, você é.

Quando este tempo passar meu amor, e vai passar, lembre do que aprendemos hoje. Nada é mesmo o que parece. E estamos por aqui de passagem, apurando os olhos da alma.

No final do dia de hoje, pensando em como poderíamos fazer deste tempo algo mais suave te perguntei qual foi a sua parte preferida do dia. A escola, você disse. Aquele momentinho em que você ficou sentada ao lado da professora. Apesar de todo o sofrimento, ele fez o seu dia valer à pena e a fez querer voltar amanhã, pra tentar outra vez e, mais uma vez, levando uma florzinha na mão.

 


Créditos da foto para o querido Daniel Machado, projeto Habitudes.

Este texto faz parte da sessão Letters to my Brave Little Girl, onde falo pra ela o que não posso esquecer para que ela saiba que com fé e coragem poderá ser o que quiser.