Sobre dias de chuva e sol

Hoje vimos amigos, como uma pequena família, se despedindo de um pequeno anjo que se foi logo que chegou neste mundo. Há tantas coisas que não entendemos, e sofrimentos que talvez nunca passem de vez. Mas ela, mesmo com um sopro tão breve nos emocionou pelo amor insano que é possível nutrir por quem nem tivemos a chance de conhecer. Por tudo que nossa imaginação nos conta que poderia ter sido. E sem dúvida por tudo que já temos e esquecemos de agradecer.

Impossível não pensar no nosso próprio relacionamento durante uma festa de casamento. Difícil não pensar nos nossos filhos quando sentimos junto a dor de outros pais. Impossível não chorar junto por eles e por nós mesmos. Pela nossa cegueira sem tamanho, passando pela vida com listas de compras.

Faz parte do “trabalho” dos pais repreender e educar os filhos, mas ali tudo o que eu queria prometer a mim mesma é que nunca mais brigaria com os meus. Que não me zangaria com os pedidos constantes de atenção, com os brinquedos jogados, com os cinco minutos que parecem meia hora todas as vezes que precisam trocar uma peça de roupa. Utopia, eu sei, mas era assim que poderia ser.

Pessimista como sou, me pego mais vezes do que deveria imaginando cenários trágicos. Meus maiores medos. E se ficarem doentes? E se se perderem na adolescência? E se sofrerem algum acidente? E se partirem para onde eu não os possa mais abraçar? Sempre que estes pensamentos vem tento me acalmar lembrando que este amor doentio que temos pelos filhos foi colocado no nosso coração por Deus. É assim que deve ser. Significa que me importo e que meu instinto se materializa a todo tempo para protegê-los. Lembro que também sou filha e Deus me ama da mesma forma, e que me emprestou um tanto deste amor. Assim me acalmo. Eles estão bem.

Assistindo hoje estes pais se despedindo da sua pequena pensei nos meus pais. Não sei dizer se quem não tem filhos sente este mesmo aperto no coração (e talvez ninguém possa dizer ao certo), mas essa ficha só caiu pra mim depois que tive os meus. Na adolescência começamos a ver os pais como pessoas, e não necessariamente como pais e mães (até então eles pareciam já ter nascido mandando na gente), e nesta fase é quase que esperada uma certa decepção e um alvo para lançarmos a culpa por tudo que nos dá errado. Eles são atrasados, quadrados, não entendem. Mas aí a gente se transforma neles e a coisa muda de figura.

Fiquei pensando em quanto desgaste emocional eles viveram e que posso colocar na minha conta. Noites sem dormir com preocupações que nem sabíamos existir. Orações no dia da prova. Consultas médicas, exames com más notícias, cirurgias, corações partidos, a conta do banco no vermelho. A gente se distanciando, e eles lá, amando este amor doído e se preocupando sempre igual.

Pesando assim não consigo imaginar uma só razão lógica que nos leve a querer ter filhos. E ainda assim, os temos. E amamos, sofremos, sentimos tudo – amor e raiva – em níveis para além do normal. É como se perdêssemos o ajuste fino dos sentimentos e sobre eles tudo é intenso. Os pequenos sinais nos devastam, nos enchem de temor, nos cortam o coração. Assim também como as pequenas escorregadelas do dia a dia nos deixam totalmente malucos, sem paciência, praguejando secretamente (às vezes nem tão secretamente assim) sobre como era mais fácil a vida antes desta invasão aos nossos úteros.

Da mesma forma achamos fantásticas as façanhas mais sem graça e nos emocionamos com tolices. Os desenhos mais tortos, as tiradas mais sem sentido e todo um conjunto de coisas que só têm nexo mesmo para quem é pai e mãe. E olhe lá! São os nossos pequenos prodígios, afinal. Cada um deles têm algo espetacularmente sensacional que, por hora, só nós somos capazes de ver – salvo aqui os avós, que vêem inclusive algo ainda mais extraordinário (e invisível).

Este dia de um pouco de chuva e um pouco de sol foi feito para ela. Nossas lágrimas caindo justamente nos minutos de chuva. As bênçãos que já temos lembradas nos raios de sol. Não quero desejar esquecer estes momentos, como quando jogo fora os lenços e guardo os remédios depois de uma temporada de um dos filhos doentes. Quero lembrar da sensação de nos ver lá do alto, fora do corpo por alguns segundos.

Dos pequenos milagres. Do quanto queremos o bem deles tão desproporcionalmente mais do que o queremos para nós mesmos. E de como fazemos isso de um jeito totalmente atrapalhado. Quero pedir desculpas pelos gritos e olhos vidrados no celular. Quero me lembrar de os pegar no colo, de dizer que os amo. E que quero amar preparar cada refeição, dobrar cada peça de roupa, ganhar cada cartinha e esperar com mais paciência pelos cinco intermináveis minutos para vestir cada perna da calça. Assim como alguém esperou por mim. Este tempo é nosso. Nossa chuva e nosso raio de sol.

Nada vai permanecer
No estado em que está 

Eu só penso em ver você
Eu só quero te encontrar 

Geleiras vão derreter
Estrelas vão se apagar

E eu pensando em ter você
Pelo tempo que durar


Pelo tempo que durar – Canção de Marisa Monte

Com amor para Talita.