Sobre fazer um dia bom

Quase todas as manhãs, ao te dar um beijo de despedida antes de ir para a escola, eu repito: “Filha, faz um dia bom“. Normalmente essa frase vem depois de uma crise de choro, porque deveríamos ter colocado a meia esquerda primeiro que a direita ou alguma outra cilada da vida que te tira do eixo.

Eu sempre digo que você tem uma escolha. Você pode chorar, ficar de castigo e até levar umas palmadas, começando um dia péssimo, ou pode escolher um dia bom. Um dia em que você não liga para o pé da meia (ou pede com carinho para que o esquerdo tenha a preferência), a gente brinca, se beija e você segue feliz.

Você sempre escolhe o dia bom, mas sob uma condição: “eu preciso de um abraço pra me acalmar”.

Confesso que não pensei em todas as implicações quando te disse que o abraço era a coisa mais poderosa do mundo e que serviria para nos acalmar quando tudo parecia sem jeito. Agora tenho que, a contragosto, de abraçar apertado justamente nas situações em que estou furiosa e que um abraço é a última coisa que quero dar. Funciona para nós duas.

É irônico e um pouco cruel como os filhos acabam por ensinar os pais, nos dando uma boa dose do nosso próprio remédio. Hoje eu percebi o quanto é difícil, ainda que nobre, a tarefa que te peço.

Seu pai acaba de sair para muitos dias do outro lado do oceano, deixando nossa família aqui meio descalça. Queria chorar (mais) e dizer que não fico sem essa meia, mas agora não dá. Preciso seguir o meu conselho, que parecia tão fácil quando dirigido a você, de tomar as rédeas da vida sem ligar para as circunstâncias.

Vou escolher fazer dias bons. Mas antes filha, por favor, eu preciso de um abraço.