Sobre ser boa companhia

Ainda que eu sonhe com o dia em que vocês me darão “boa noite” e seguirão sozinhos para suas camas, tenho que reconhecer que o momento antes de adormecerem é o melhor. Nossas conversas na cama, enroladas nas cobertas, rindo baixinho e falando sobre a vida são sempre a parte mais gostosa do meu dia.

 Às 20:30 eu já estou acabada. Pedindo pelo amor de Deus pra que você me deixe dormir. E você, alegre,  quer papear. Sempre acabo rindo muito das coisas que você – só neste momento – quer partilhar espontaneamente.

Ontem falávamos sobre os meninos que correm atrás das meninas, que batem, xingam e essa coisa toda que todo mundo que um dia foi criança já viveu. Ainda que eu reconheça que isso é normal (ainda lembro bem quando era eu que corria), não quis fazer pouco da situação,  já que por aqui essas criancinhas de sete anos já medem um metro e cinquenta 😅.

Depois de todos os “causos” e de me dizer que o meu plano não funcionaria, você suspirou e disse que era bom ter tantos amigos. Com as mãozinhas abertas me mostrou o tanto de amigos que já tinha feito na escola. O mesmo tanto, um pouquinho mais pro lado, representava os amigos de fora da escola. Era muita gente! “E há!” – você se lembrou – “Esse tanto aqui, pequenininho sou eu, já que eu sou amiga de mim mesma!”.

Rimos juntas da sua epifania, que afinal faz todo o sentido. A inocência é sempre brilhante. Pra você essa camaradagem era algo bem óbvio, eu é que precisei de um tempo e achei até engraçado pela falta de familiaridade com o conceito. Me fazer amiga de mim. Este tempo juntas, de menos coisas pra fazer, quem sabe tem mesmo valido a pena. Você tem aprendido a estar só e eu aprendido com você.

Desejo que essa amizade cresça com você. Que a inocência dê lugar a gentileza para se fazer sua melhor companhia, especialmente nos momentos de solidão.

Que seus pensamentos sejam como aquelas conversas boas noite adentro, que só temos com os cúmplices. Cheias de bem querer, de desejo genuíno de só escutar. Com compaixão, tolerância, bom humor. Carinho misturado com liberdade, coisa que só os amigos conhecem. 

Sempre quis ser um pouco de disso pra você. E agora fecho os olhos em paz, entendendo que você pode sempre encontrar tudo isso em si mesma, sem mim. Não há parceiro melhor para se ter ao lado. Te entrego em boas mãos, meu amor. Boa noite.