Tudo (e mais um pouco) sobre como funciona a escola na Holanda

Está considerando se mudar para a Holanda e dá dor de barriga só de pensar em como será a adaptação dos pequenos na escola? Começo dizendo que pesquisar sobre as opções de ensino na Holanda parece ser super complicado, mas não é (tanto). A educação bilíngue e tantas outras inseguranças fizeram parte da nossa adaptação por aqui. Como é a escola na Holanda? Quanto custa? Que idiomas falam? Como são os professores? É difícil encontrar vagas? Como será para o meu filho se decidirmos nos mudar depois de alguns anos? Enfim, essas e outras perguntas estavam na nossa cabeça quando nos preparávamos para morar em Amsterdam. Se você também se sente assim e está cansado em buscar informações fragmentadas em milhares de sites este texto é para você. Aí está absolutamente TUDO o que você precisa saber sobre como funciona a escola na Holanda (o que eu não daria para ter encontrado um post assim antes de vir pra cá? 😅).

Day CareDe 0 a 2,5 anos

Infelizmente se seu pimpolho tem menos de 2,5 anos você pagará (e caro) por uma creche (day care). Elas são privadas e custam em torno de 7,80 € a hora. Normalmente neste preço estão inclusas 100% das despesas, inclusive fraldas e fórmula. Somente algumas tem a opção de meio período (até às 13 hs), com a maioria somente em período integral. Neste site é possível consultar as opções de acordo com o seu CEP (use a opção de 0 a 4 anos).

No caso de ambos os pais trabalharem ou estudarem, há a opção do Childcare Benefit (kinderopvangtoeslag), que expliquei em detalhes neste post. Basicamente é um auxílio do governo para pagamento de parte deste valor. É possível receber ajuda de custo de no máximo 230 horas por criança / mês, com valores por hora de até 7,45 € para Child Care, 6,95€ para Out-of-school ou After-School Care e 5,91€ para child minders (cuidadoras). Acima destes valores ainda é possível receber o beneficio, mas se por exemplo, a creche custar 7,85 €por hora você não terá o subsídio sobre os 0,40 € da diferença. Esta é a página oficial com todas as informações, aqui tudo sobre impostos e outras taxas. Esta empresa faz a ponte entre o governo e os pais, ajudando em toda a documentação. No site deles há uma calculadora que ajuda a fazer a simulação de um jeito bem simples.

Existem outras opções além da tradicional Day Care, como as cuidadoras, babás e as Au Pairs. No caso destas últimas, o custo mensal gira em torno de 350 €, mais custos de viagem e visto (além é claro dos custos de moradia e alimentação associados a ter uma pessoa a mais em casa). Mas esta é uma opção um tanto mais complexa e com algumas outras questões a considerar.

Se quiser pesquisar um pouco mais sobre alternativas para os pequenos este site pode ajudar.

Pré-escola (voorschools) | De 2,5 a 4 anos

A partir desta idade as crianças podem começar a frequentar estas escolas que servem de certa forma como um preparatório para a vida escolar, já que toda a interação é feita em holandês. O governo apoia subsidiando parte dos custos (valores variam conforme número de dias e remuneração dos pais) e as crianças normalmente frequentam as aulas somente algumas manhãs por semana (no nosso caso três dias, das 8:30 às 12:30 hs). É possível que a criança vá todas as manhãs, mas neste caso os pais terão que pagar os custos (bastante altos) integralmente.

Algo que faz bastante diferença para conseguir uma vaga é a indicação da enfermeira (veja mais aqui sobre o sistema de saúde na Holanda), para o caso onde a criança e os pais não falam holandês. No passado estas indicações eram bastante comuns para expatriados, mas a partir de 2018 a regra mudou e enrijeceu um pouco o sistema. Caso os pais tenham ensino superior entende-se que estes podem auxiliar a criança no aprendizado na língua, não sendo necessário o tempo na pré-escola. Ainda assim, pelo que podemos perceber isso varia muito conforme a avaliação feita pela profissional da saúde quanto à necessidade da criança e situação da família.

Sobre o tempo em sala, é normalmente um momento para brincar, explorar e socializar. As salas tinham poucos alunos (de 9 a 12), com uma professora e uma assistente, e a rotina era bastante estruturada. Depois de um momento inicial (circle time), onde as crianças falam os dias da semana, aprendem palavras e cantam, cada criança tem a sua vez para buscar um brinquedo com a professora que simboliza a atividade que escolheu para fazer a seguir (olha a autonomia aí desde cedo). Independente do tempo elas sempre vão brincar na rua (mesmo que esteja chovendo canivete eles saem por 10 minutos), cantam, jogam e interagem.

Uma curiosidade é que mesmo nesta idade poucas escolas fornecem alimentação quente para o horário do almoço. A pré-escola que a Nick frequentou era uma das poucas na nossa região que fornecia 100% da alimentação, incluindo um almocinho tradicional. Nas demais o esquema é o holandês padrão, com cada um trazendo seu sanduíche.

Sala de aula na Holanda
Sala de aula da pré-escola, com espaços para que as crianças tenham autonomia para brincar em diferentes atividades

Escola Primária e Secundária | De 4 a 12 anos

Na Holanda o ensino primário e secundário é gratuito e de qualidade. Você só pagará (e muito) se optar por uma escola internacional, onde seus filhos serão alfabetizados em inglês. Esta é a opção normal dos expatriados, que normalmente vem para passar poucos anos e querem manter um currículo universal e sem holandês para os pequenos. Quando viemos, confesso que achei que o inglês era algo comum nas escolas desde cedo, já que todo mundo por aqui o tem como segunda língua, mas na prática as crianças só começam a ter aulas de um segundo idioma bem mais tarde na maioria das escolas (por volta dos 10 anos).

Durante os primeiros anos a educação infantil é bastante livre, com uma ênfase absurda à liberdade e autonomia. Eu visitei uma escola (bastante concorrida) no meu bairro onde as crianças do grupo 1 (4 e 5 anos) já precisavam entrar num consenso sobre qual seriam as atividades do dia para o grupo. Segundo a professora isso poderia ser um pouco confuso no início, mas em poucas semanas todas pegam o jeito.

Esta autonomia é uma marca nacional. Falei um pouco aqui neste post sobre o segredo das crianças mais felizes do mundo e este jeitão livre sem dúvida é uma delas. Sem “mães-helicópteros” nos parques, as crianças brincam livres, se entendem e os pais curtem um sol (quando vão ao parque junto, a maioria vai sozinha). Os parques públicos são inclusive utilizados (faça chuva ou faça sol) pra criançada brincar nos intervalos das aulas. Há sempre alguma supervisão de professores, mas é um pouco enlouquecedor para uma mãe latina, porque são dezenas de crianças da escola brincando num espaço aberto, junto com crianças do parque. Tudo isso sem uniforme (aqui não se utiliza), o que dificulta um pouco a localização dos pupilos.

Esta liberdade está também na forma como as escolas escolhem seus currículos, com muita autonomia para escolher o que e como ensinar. Algumas darão ênfase às artes, outras à matemática. Algumas terão provas, outras não terão salas de aulas tradicionais, mas clubes onde os alunos entram conforme interesses. Esta matéria do G1 conta um pouco sobre isso com vídeos e depoimentos, bem interessante pra quem quer sentir o clima. O lado bom é que os pais podem escolher a escola segundo o estilo que melhor se adequa ao perfil da criança e da família. O ruim é que essa ênfase pode pesar mais tarde no direcionamento da criança para o ensino médio.

Na Holanda a cada ano, desde os 4 anos de idade (Grupo 1) até os 12 anos (Grupo 8), as crianças fazem um teste (CITO) e recebem a avaliação do professor. Conforme seus resultados elas serão encaminhadas a um determinado tipo de educação no ensino médio. Quando chegamos tivemos uma consultoria de algumas horas sobre o assunto, e quando a coaching falou que deveríamos escolher a escola da Nick pensando no que ela precisaria para a faculdade ficamos meio paralisados.

A questão é que existem diferentes modalidades no ensino médio, que variam conforme esta avaliação. Basicamente são 3 tipos: VMBO que prepara o aluno para educação secundaria preparatória vocacional, VWO que prepara o aluno para a universidade e o HAVO, que foca em universidades de ciências aplicadas. Existe ainda a possibilidade de ensino técnico. Parecia um papo de maluco demais para o momento, e realmente acho que não é necessário pirar nisso. A questão é escolher uma escola onde a criança se sinta segura e motivada a aprender. O resto virá no momento certo.

Outro ponto interessante é a questão das crianças não terem lição de casa. Já que ficam na escola das 8:30 às 14:30 hs (pode mudar um pouquinho conforme a escola), os educadores entendem que após este horário a criança precisa é brincar e estar com os pais. Num dos dias da semana a escola tem um horário reduzido, no nosso caso às quartas-feiras, quando a escola termina às 12:30 hs. A única obrigação é que a escola mantenha o número anual de horas (940 horas aula / ano), tendo liberdade para distribuí-las da melhor forma.

Outra particularidade são as férias. Boa parte da felicidade da criançada (e do desespero dos pais) está em saber que existem férias em cada uma das estações do ano. Isso significa que a cada 1,5 mês eles farão uma paradinha, sendo as mais generosas no verão (6 semanas). As férias de inverno, entre Natal e Ano Novo, são bem curtinhas, somente 2 semanas. O que deixa os pais expatriados (de voos intercontinentais) numa posição delicada (veja aqui sobre opções de trabalho flexíveis na Holanda).

Parque Amsterdam, crianças brincando
Haja parque e play date para tantas férias

Importante dizer que a educação é obrigatória a partir dos 5 anos (até os 16). Se estiver morando por aqui, quando seu filhote completar 3 anos você possivelmente receberá uma cartinha solicitando o preenchimento (explico a seguir) para matrícula na escola. Se chegar com ele após esta idade, pode começar já o passo a passo que explico abaixo para garantir a sua vaga. Caso tenha chegado ao país após os 6 anos é provável que a criança precise frequentar uma escola preparatória (newcomers-classesdurante alguns dias da semana para aprender o holandês antes de conseguir acompanhar normalmente o currículo.

Apesar da obrigatoriedade a partir dos 5 anos, é bastante comum que as crianças comecem na escola aos 4. Elas iniciam a aula muitas vezes no dia do aniversário. A Nick fez festinha no sábado e segunda-feira estreava a vida de “Big Girl”. A propósito, aqui o ano letivo vai de Setembro a Junho. Com 4 anos ainda é possível ter bastante flexibilidade sobre a forma de frequentar a escola, sempre em consenso com os educadores, claro. É possível, por exemplo, escolher ir apenas 4 vezes por semana, ou fazer uma carga horária menor. Já a partir dos 5 anos a coisa muda de figura. Faltas injustificadas são punidas com multas (em torno de 100 euros ao dia, dependendo da escola), e viajar com a família para passear não é justificativa (se o governo cumpre a sua parte com ensino gratuito e de qualidade, os pais devem fazer o mesmo com a presença dos filhos em sala). No caso de um problema de saúde basta um aviso nos pais à escola, não sendo necessário comprovar com atestado médico, por exemplo.

Outras curiosidades a respeito das diferenças no ensino são que as crianças almoçam ao estilo holandês, ou seja, sanduíches. Elas levam uma fruta para o lanche da manhã e um sanduíche com algum complemento se quiserem (tomate cereja, pepino, cenourinhas) para o almoço. E é isso aí, nada de pratinhos quentes.

Criança andando de bicicleta
Felizona indo para a aula de bike

Sobre os Tipos de Escola e Valores

Escolher a escola pode demandar um certo tempo em pesquisa. Dentre as opções gratuitas você encontrará por exemplo, linhas de ensino Montessori, Dalton, Católicas, Ecumênicas, Islâmicas, Antroposóficas (escolas livres – filosofia de Steiner), Especiais, orientadas ao desenvolvimento, Filosóficas, Aprendizado Natural, e por aí vai. A lista é grande e não me pergunte o que cada denominação dessa quer dizer ou como implica na forma com que as crianças serão educadas.

Para facilitar a coisa toda, o governo disponibiliza este site onde é possível colocar o seu CEP e ver a lista de escolas próximas, com todas as informações super organizadas. Além de uma descrição da escola e da metodologia, está o link para o site da escola, informações sobre os educadores e um resumo da avaliação feita sobre a instituição. 

Para estas escolas não há custos, apenas uma contribuição anual para passeios e algumas atividades extras. Este valor pode variar de 50 a 200 € ao ano. Vale lembrar que não existe custo de matrícula e nem mesmo de material escolar. A criança vai para a escola com seu sanduíche na lancheira e pronto.

Existem ainda algumas escolas especiais ou centros de formação para onde são encaminhadas crianças com necessidades especiais de aprendizado. Uma amiga que tem um filho com atraso na fala recebeu a indicação para frequentar este espaço durante 3 manhãs na semana. Durante um período de observação a criança fica numa sala com menos colegas (9 crianças) e muita atenção. Ao longo da manhã eles fazem atividades como na escola convencional, mas recebem visitas de profissionais dos mais diversos tipos, um time multifuncional composto por pediatras, fonodiólogos, psicólogos, psiquiatras, fisioterapeutas, etc farão suas avaliações e durante este período os pais receberão uma série de informações sobre a criança, de forma a direcionar o melhor método para tratamento e formação escolar. Tudo isso a custo zero.

Já se a opção é por uma escola internacional prepare o bolso! Se a empresa que o contratou inserir no pacote a mensalidade tá tudo certo, caso contrário o custo para a educação internacional poderá ser bem salgado. Existem dois tipos de escolas neste caso: as privadas (onde o custo é 100% pago pelo aluno) e as parcialmente subsidiadas pelo governo. Não existem tantas opções disponíveis e a fila de espera pode ser bastante longa. Neste site estão todas as informações e a lista das escolas de ambos modelos.

Somente para ter uma ideia dos valores, considerando as informações de alguns amigos com filhos em escolas internacionais, prepare-se para pagar algo em torno de 15,000 a 25,000 € ao ano para uma privada e em torno de 6,000 € euros para as parcialmente subsidiadas.

Existem ainda as After-Schools, que funcionam basicamente no mesmo esquema do Day Care, para o caso de ambos os pais trabalharem e não estarem disponíveis para pegar a garotada no final da aula. Neste caso um responsável irá buscar os alunos no final da aula, vestir uns coletinhos e levá-los numa espécie de trenzinho da alegria até as instalações do after-school. Normalmente são espaços divertidos, onde as crianças brincam ou tem aulas diversas como dança, culinária ou artes.

Crianças carrinho holanda
Crianças saindo da escola e seguindo para o After-School

Meu filho está em idade escolar, e agora? Por onde eu começo?

É muita coisa para pensar, eu sei… Então vamos respirar fundo e seguir estes 5 passos bastante simples e quase indolores. No final dará tudo certo, eu prometo. Se quiser dar uma olhada em profundidade, neste link estão mais informações e aqui o site oficial da prefeitura. As informações abaixo são para o ensino básico holandês. Para o internacional basta entrar em contato diretamente com a escola.

1. Marque um primeiro papo com a enfermeira responsável pelo acompanhamento das suas crianças no Consultate Bureau. Veja mais informações sobre isso aqui. Ela poderá ajudar no caso de alguma indicação ou necessidade especial ou ainda caso você ou seus pequenos estejam inseguros sobre a língua, tipos de escola e o processo em geral.
2. Faça uma lista de escolas. Entre neste site, digite seu CEP e passe algum tempo vendo as opções disponíveis perto de você. Anote as 10 escolas que mais lhe chamaram a atenção, por ordem de prioridade.
3. Faça algumas visitas. Entre no site das escolas e veja se eles tem Open Days previstos no calendário. Normalmente as escolas preparam dias onde abrem as portas para que os futuros pais conheçam a estrutura. Na escola da Nick são as próprias crianças que mostram as instalações, bem fofo. Em caso positivo, inscreva-se e comece a visitar, em caso negativo, escreva um e-mail solicitando um horário para visita. Não vá sem agendamento. Toda a informação estará em holandês (use a tradução automática do Google, acostume-se com isso) e prepare-se para participar de alguns tours e reuniões em holandês onde você não entenderá uma palavra. Respire fundo e procure ajuda, sempre tem um abençoado para dar uma mão nessas horas. Fique atento aos prazos para inscrição (veja datas atualizadas anualmente no site da prefeitura), na dúvida faça tudo com muita antecedência.
4. Preencha o formulário. Depois de fazer as visitas você terá já uma boa ideia de qual o lugar do seu pupilo. Preencha então este formulário listando suas 10 escolas selecionadas (pode ser menos que 10 se preferir), por ordem de preferência. Feito isso, entregue na secretaria da primeira escola (a sua primeira opção de escolha). Se houver vaga, pronto, seu filho estará matriculado. Em caso negativo, a escola registrará sua listinha no sistema e vocês passarão por um sorteio da prefeitura, tentando vagas nas escolas conforme a ordem indicada por você. Vale lembrar que você deverá ter escolhido as escolas conforme seu CEP, se estiverem fora do raio apresentado no item 2 possivelmente sua escolha não será aprovada.
5. Pronto! Agora é só marcar a reunião de “intake” com a professora para acertar os detalhes e passar para a escola todas as informações sobre seu pequeno.
Criança lendo em biblioteca pública em Amsterdam
Filial da OBA (biblioteca pública de Amsterdam) no bairro, com diversas atividades para as crianças.

Escola na Holanda – A nossa experiência (prepare os lencinhos)

Agora que você já sabe absolutamente tudo sobre a escola por aqui eu posso contar um pouco mais sobre os bastidores da nossa experiência.

Chegamos em Amsterdam no final de fevereiro e como estávamos no primeiro mês numa residência provisória foi tudo um pouco mais confuso. Como não tínhamos o CEP definitivo, não tínhamos ainda nosso GP (médico da famíia General Practitioner), a enfermeira que poderia nos dar aquele apoio ou meios para pesquisar as escolas, porque não sabíamos ao certo onde iríamos morar.

Tivemos uma ajuda da empresa pagando uma hora de reunião por Skype com uma consultora educacional, que ajuda os expatriados a entender um pouco melhor tudo isso que eu tentei explicar acima (pensa!). Faltava apenas uma semana para o prazo final do sorteio da prefeitura e ela basicamente nos apavorou demais. Disse que em uma semana a gente teria que ter fechado o contrato de aluguel (para saber o CEP) e decidir pela escola, caso contrário a Nicole ficaria sem estudar no próximo ano (ela estava com 3 anos neste momento). Saímos desesperados e fizemos tudo o que ela recomendou (ainda que ao final não tenha sido necessário).

Não tínhamos ainda um apartamento, mas um ideia da região onde gostaríamos de morar. Passei uma tarde vendo os sites das escolas daquele bairro, preenchi a ficha e no último dia antes do sorteio bati na porta da escola sem avisar. Para nossa surpresa, fomos recebidos super bem, a escola era no tamanho certo, com um clima caloroso, pessoas bacanas e um método simples.  As salas de aula tinham janelões de frente para o “mar de água doce” que temos aqui em Ijburg, lindo demais. Nos sentimos bem acolhidos e felizes pela providência divina ter nos levado ali. Por sorte a escola tinha vagas e não precisamos nem mesmo passar pelo sorteio. E por mais sorte ainda era uma das únicas escolas da região (e acho que de Amsterdam) com alguma ênfase no inglês já desde os 4 anos. Achamos o máximo pois a Nick poderia se comunicar sem maiores problemas (ela frequentava uma escola bilíngue no Brasil e já arranhava um inglês). Na escola quarta-feira é o “dia do inglês”, e além de terem um tempo de aula da língua todos têm que se esforçar para conversar só em inglês neste dia. Depois disso, com tempo, visitei outras escolas mas as visitas só reforçaram que deveríamos ficar onde estávamos.

Ainda no meu endereço provisório consegui ajuda de uma enfermeira que foi super bacana e deu a indicação para a Nick frequentar a pré-escola, três manhãs por semana. Visitei com ela alguns lugares e deixei que ela escolhesse. Entre um lugar mais perto e menos “caloroso” e um em que ela teria que andar 1,5 Km ela preferiu a distância. Foi excelente! A salinha era pequena, as professoras queridas e ela inclusive fez amigos brasileiros que estão com ela até hoje e fizeram deste tempo de integração uma delícia. O modelo era bem parecido com as escolinhas no Brasil, com muita atenção e carinho. Ela ficou ali de Abril a Agosto, mas com tantas semanas de férias neste intervalo o tempo foi pouco para aprender o holandês e prepará-la de fato para a escola.

Cogitamos neste meio tempo a escola internacional, o que significaria inclusive trocar de endereço pra viabilizar a logística diária. Fui com ela em uma escola em Haarlem para que ela sentisse o clima, mas ela pediu pela escola holandesa. Ela acha o máximo a língua, queria aprender e se sentia super frustrada nos parques quando não conseguia interagir com as crianças. Nós não temos planos para ficar, não sabemos o tamanho dessa temporada por aqui e tivemos um milhão de pensamentos sobre confundir a cabeça dela e sobre fazer sua alfabetização em outra língua. Por fim, concluímos que por mais estranho que pareça, é uma língua a mais e só irá somar para ela no futuro. Inglês ela fala e continua a exercitar, e a alfabetização em português precisaremos fazer paralelamente. De toda forma, o argumento matador foi: ela está super motivada para aprender.

No primeiro dia de aula ela estava mega empolgada. Se achando a “Big Girl”, numa escola de “Big Girl”. Tinha acabado de curtir sua festa de aniversário e foi pedalando pra aula (presente de 4 anos). Ficou super feliz e deu tchau mandando beijos. Tudo pra dar certo. Combinei com a professora algumas semanas de adaptação onde eu a buscaria mais cedo. Ao final da primeira manhã quando cheguei na porta de vidro não consegui encontrá-la. A professora estava de pé, dando a maior bronca num canto: “You’re being stubborn! Stop being so stubborn!” ela dizia. Naquela hora meu coração apertou. Eu só pensava: “Por favor Deus, não deixe ser a Nicole“. E era. Quando me viu ela veio em minha direção, cabeça baixa, pulou no meu colo e com o rosto soluçando no meu pescoço ela contava, como sem acreditar, que a professora a havia colocado no castigo.

Para ela, que até então só tinha estado em salinhas com professoras tipo “Professora Helena” aquilo era algo impensável. A professora deveria ser alguém angelical. Enfim, conversei com a professora e ela disse que a Nicole estava sendo teimosa, que não quis sentar no momento certo e por isso foi para o castigo.  Que ela tem total direito de não fazer uma atividade se não quiser, mas não pode desrespeitar as regras. Ela deve esperar junto com os colegas, mesmo se não quiser fazer a tarefa proposta. Questionei se ela havia de fato entendido a orientação e se ela poderia me ensinar as regras em classe, a rotina, assim eu poderia repassar em português e facilitar as coisas. Ela disse que não, que ela aprenderia tudo a seu tempo.

Uma amiga que chegou com uma filha mais velha passou por uma situação parecida, e a adaptação foi muito mais simples depois que a professora explicou para mãe regras simples, que todas as crianças daqui conheciam, mas estranhas para os novatos. Quando não entende algo o aluno não deveria, por exemplo, chamar a professora de cara. Deveria primeiro perguntar para um colega. Após explicar a matéria a professora passa em todas as mesas para checar o entendimento. O aluno não deve chamá-la antes, mas esperar a sua vez. A filha da minha amiga naturalmente tinha dúvidas o tempo todo, e o seu comportamento irritava a professora e os colegas. Parecia falta de educação. Foi só explicar as regras do jogo e pronto.

Enfim, voltando à nossa história, achei que a professora poderia ter pegado mais leve, por ser o primeiro dia. Mas entendo que com mais de 20 crianças em sala ela não pode deixar a coisa desandar, e de fato a Nick sabe ser teimosa quando quer testar os limites. Tentamos levar o assunto do jeito mais positivo possível, cuidando do processo mas encarando as dificuldades sem engrandecê-las demais. Adaptar-se dói e isso é normal.

Naquele dia fomos embora de coração na mão, eu e ela. Pensei que no segundo dia ela iria pedir para não ir, mas isso nunca aconteceu. Foi um mês muito difícil, em que cada dia víamos, eu e ela, um novo desafio. Cansaço de tentar entender durante toda a manhã as instruções em outra língua, choro e frustração por não poder se comunicar. Dificuldades nas pequenas coisas que ela ainda não sabia fazer sozinha, como colocar o casaco, ir ao banheiro sem ninguém para ajudar, colocar o tênis.

Durante algumas semanas ela passava os dias sem fazer nenhuma atividade. Observava as crianças e se sentava ao lado da professora, buscando aprovação e tentando merecer algum afeto. São na verdade duas professoras se intercalam durante a semana e a Nick nutre um carinho grande por ambas.

Pouco a pouco as coisas foram se ajeitando. A cada novo aprendizado mais autonomia e mais felicidade da parte dela se vendo crescer. As crianças foram muito gentis com ela. Sendo a menorzinha da turma todos ajudavam o tempo todo. Eram queridos, consolavam, tentavam ajudar e ensinar palavras. Depois de um mês, pela primeira vez ela não chorou. Foi e voltou feliz, realizada.

Estamos em novembro e faz apenas 2 meses que tudo isso aconteceu. Ela obviamente ainda não fala holandês, mas já tenta cantar as músicas, segue as orientações e brinca com as crianças sem problemas. Pega na biblioteca livros em holandês e pede que a gente leia para ela (aja imaginação aqui).

Percebo nela e nas outras crianças um respeito pela professora que acho bonito e gostaria de ver em outros lugares. Ao chegar pela manhã eles a cumprimentam com um aperto de mão, e novamente na hora de ir embora. Os pais só entram na sala de aula depois que uma das crianças abre a porta e diz que eles estão prontos para ir. Tudo é muito organizado e tranquilo. As professoras são atenciosas e a presença dos pais, inclusive ajudando em tarefas na escola, é constante. Durante estes meses nunca ninguém me perguntou quem eu era ao caminhar pelo pátio. Não tem portão fechado, cadeado ou guardinha, mas todos conhecem a Nicole pelo nome.

Na nossa última conversa a professora disse: “Hoje a atividade era para desenhar um carro. Ela fez um celular. Essa é a Nicole.”, rindo. Acho que as duas já aprenderam a se conhecer e se gostar. Apesar do choque cultural estamos felizes com a mudança e o valorizar da autonomia. Ela está feliz, fez amigos e tem aprendido um bocado. Nós também.

Criança em escola na Holanda, Amsterdam
Conquista! Primeiro dia de aula sem choro! Só felicidade!

Está considerando seriamente em morar na Holanda? Então você provavelmente gostará de saber mais sobre os custos de vida por aqui, o perfil do holandês, alimentação, mercado de trabalho, saúde e o muito mais para se preparar para esta virada (de cabeça pra baixo) na sua vida. Continue lendo e se tiver dúvidas ou complementos é só deixar nos comentários ?.